Recentemente uma polêmica se instalou nas paragens paulistanas graças à desnecessária interferência do excelentíssimo senhor Bruno Covas nas interações da vida privada. Trata-se de uma medida intervencionista que visa tolher empresas e indivíduos de deliberar livremente sobre a utilização de inofensivos patinetes para circulação nas ruas de São Paulo.
Não obstante todas as legislações federais e de todo tipo sobre trânsito e direitos de reparação na esfera civil, nosso sempre preocupado burocrata crê piamente que na ausência de uma burocracia local nossos usuários de patinetes transformarão a capital do estado em um calamitoso cenário de Mad Max.
Dados os planos de Covas de restabelecer a paz na galáxia, mais de 500 patinetes foram apreendidos no primeiro dia de vigor da normatização, qual normatização também resultou em efeitos nocivos para empresas que optaram por ganhar dinheiro honesto atendendo pacificamente a demanda dos consumidores. Uma dessas empresas inclusive chegou a questionar judicialmente as novas restrições, sofrendo por isso manifesta retaliação do déspota Tucano. A referida empresa foi proibida de participar da reunião institucional com as demais empresas que estão atuando ou pretendem atuar nesse setor.
Tais acontecimentos não surpreendem exatamente ninguém que esteja familiarizado com as práticas políticas vigentes em todas as unidades da federação. Nos últimos dias, por exemplo, noticiou-se um padrão de perseguição do governo paulista contra servidores que denunciavam irregularidades na administração, ato este que está totalmente divorciado da opção manifestada pela sociedade brasileira que evidencia, principalmente a partir dos resultados nas urnas, uma completa repulsa pela corrupção e práticas assemelhadas da velha política.
Falando em velha política, nos permitimos o uso desse termo mais ou menos ambíguo graças à atitude autocrata do excelentíssimo senhor Bruno Covas. Suas declarações estão em total consonância com o sentimento político dos coronéis e outros projetos de déspotas que creem piamente serem dotados de uma iluminação especial que lhes confere o dom de julgar o que é melhor para cada um dos indivíduos, digo, súditos.
"Governar é como cuidar do filho adolescente. Temos que fazer o que é bom para ele, não o que ele pede. Ele vai reclamar, mas um dia vai entender e reconhecer". COVAS, Bruno.
Há uma completa desnecessidade de refutar as declarações da Vossa magnificência Bruno Covas. Suas declarações encerram várias presunções que são totalmente vazias de fundamento. Veja-se o que se extrai:
* há uma classe de pessoas manifestamente inferiores (infantes de 20 ou 40 anos) que necessita ser tutelada por outra classe de indivíduos sábios e maduros, nesse caso o prefeito;
* há uma classe de pessoas que tem as qualidades necessárias para julgar entre o bem e o mal e tomar as decisões no lugar de terceiros indivíduos, mesmo a revelia destes, dado que são seres inferiores cuja capacidade de decisão deve ser desconsiderada;
* eu, você e quase todo mundo pertence a classe dos adolescentes curatelados. Bruno Covas pertence a uma classe ontológica distinta, formada por santos e sábios;
* o critério para definir que Bruno Covas tem mais direitos do que eu sobre minha vida particular é que ele participou de uma chapa de um prefeito anterior que dispensou o cargo em prol de viver outras aventuras;
* logo, como a ocupação ou não de cargos eletivos define quem é o sábio tutor e quem é o tolo tutelado, então bastaria que Tiririca fosse o chefe do executivo de qualquer ente federado para que ele automaticamente fosse elevado a um nível moral e de sabedoria de um Aristótles;
* obviamente todos os outros seriam umas bestas-fera, inclusive os ex-prefeitos, governadores e presidentes que por não ocuparem mais o estamento burocrático foram rebaixados de um Aristóteles para adolescentes pueris cujo inteléctuo já não basta para apreciar a decisão de como e quando subir em um patinete.
* portanto, para ter sua estatura moral e intelectual reconhecida, e para que suas decisões passem a valer tanto para você como para milhões de indivíduos, você precisará ganhar alguns votos, e talvez já devesse começar a pensar em um marqueteiro.
O que impressiona não é que hajam sujeitos como Bruno Covas. De fato desde o começo da humanidade houve sujeitos que julgaram serem parte da classe dos anjos ou dos deuses. O que impressiona é que hajam pessoas conformadas e talvez gratas pela existência de figuras pastorais cujo cajado salvará as ovelhas de ameaças como saleiros malignos presentes em mesas de restaurantes. Os acadêmicos pós iluministas posam com ar de superioridade desdenhando dos povos que viveram debaixo da teoria do direito divino dos reis. Fariam bem tais acadêmicos em investigar se o sentimento que ainda perdura na sustentação do estado moderno não é psicologicamente o mesmo...
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Tuesday, June 4, 2019
Thursday, May 16, 2019
Cultura pop, Raul Seixas e patrulha ideológica.
Há um fenômeno bastante comum em meio aos movimentos políticos idealistas que querem a todo custo incendiar a ordem vigente. Trata-se de um sentimento de urgência, uma necessidade de mudar o mundo para ontem, geralmente colocando a mudança como a meta em si sem dar atenção para os resultados realizáveis. Tal se deu na revolução francesa, na soviética, na revolução cultural da China e em muitas outras que compartilham o mesmo gene. Talvez o termo que melhor defina esse fenômeno seja revolucionar por revolucionar.
Hoje um dos campos mais visados por esses arquitetos das transformações sociais é o campo do entretenimento. Em prol da ideologia, estabelecem-se critérios daquilo que é publicável ou não, consumível ou não, num cenário onde qualquer comparação com 1964 passa a ser bem mais que liberdade poética.
Ao fim da ditadura militar, quem chegou a trazer essa ideia da mídia como a nova força responsável pela censura foi justamente o saudoso Raul Seixas, que aliás era um indivíduo que podia falar de censura com muito conhecimento de causa. Contemple a letra de uma de suas últimas gravações e então observe o grau de insatisfação que o cantor manifestava àquele tempo:
O Best Seller do momento
É um livro agourento
Que ninguém entende mas
Todo mundo quer ler
Ler pra ter cultura
e como acabaram com a censura
A mídia agora é o nosso Aiatolá
***
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa com o mocinho
E o Best Seller vai pra milésima edição
***
Se já não existe inteligência
Então vamos bater continência
pra esse indício De resquício militar
(um, dois, três, quatro)
E como é tudo a mesma merda,
Antes que chegue a vida eterna
Eu vou pedir asilo ao Paraguai
(trechos da música Best Seller presente no último disco de Raul Seixas e Marcelo Nova - A Panela do Diabo 1989).
Além de contestar o papel da mídia como o Aiatolá de 1989, a angústia de Raul quanto ao controle ideológico de suas obras foi representada em diversas letras de sua carreira em diversos momentos diferentes, antes ou depois da ditadura. Outro exemplo é o protesto na famosa letra do carimbador maluco de 1983:
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!!
Tem que ser selado,
registrado,
carimbado,
avaliado,
rotulado
se quiser voar!
Se quiser voar.
Graças a outras formas de controle ideológico, o fato de ter saído de uma censura governamental não resultou em um estado satisfatório para esse pioneiro do rock. Tendo isso como pano de fundo, pergunta-se: -- Como então ele avaliaria o atual grau de imposição da militância politicamente correta na mídia atual?
Para que não restem dúvidas sobre a condição de patrulha ideológica que vivenciamos, comecemos por exemplificar nosso raciocínio com uma polêmica recente envolvendo a atriz Scarlett Johansson. Rub & Tug seria um filme que tinha em seu enredo um protagonista trans e que seria interpretado pela mesma intérprete da viúva negra.
Parecia uma fórmula que agradaria os mais exigentes de todos os mundos... havia um protagonista trans... havia uma atriz da classe AAA de Hollywood que atuou numa equipe com um legado ainda indizível na cultura cinematográfica... tudo parecia muito bom, mas não para os patrulheiros ideológicos. Para estes o personagem deveria ser interpretado por um ator também trans.
O resultado? Tão massiva foi a pressão que Scarlett acabou se desligando da produção e pouco tempo depois já nem se sabia se tais desventuras não resultariam no próprio cancelamento do filme.
Encaremos a realidade. Com a participação de Scarlett Johansson o filme realmente tinha um absurdo potencial. (falo como jeek consumidor de blockbusters). Mas eu com certeza não seria o único, por que eu conheço mais gente da minha estirpe, esse público nerd pra quem qualquer filme ganha o dobro do Hype só por ter a participação de qualquer um dos vingadores. O público assistiria, a produção lucraria, sequências poderiam ser pensadas, o tema seria visto com interesse pelos concorrentes... a militância jamais reconhecerá, mas a celeuma foi um tiro no próprio pé.
O cinema nacional por sua vez não fica longe dessas ladainhas. Veja-se a recente confusão sobre a atriz Taís Araújo no filme da "cientista" Joana D'arc Felix. A história da mulher pobre que virou PhD em Harvard (EUA), teve de ser abortada por conta de um descontentamento em comunidades, grupos e redes sociais. Pessoas alegaram que o tom de pele de Taís seria mais claro do que o da cientista, e que uma outra atriz mereceria o papel.
Mas veja que impressionante... no decorrer da presente semana esse projeto também foi pras cucuias. Segundo apurou o jornal Estado de São Paulo, Joana D'arc teve formação exclusiva no Brasil, nunca fez um pós doutorado e jamais teve um diploma de Harvard. Tais constatações em nada diminuem Joana como profissional, mas certamente comprometem a ideia de usá-la como modelo para pessoas pobres que pretendam estudar em Harvard.
Soma-se a esse episódio alguns outros que já ocuparam as atenções da mídia nacional, como a importantíssima discussão da etnia de Carlos Marighella, e então a conclusão que se impõe é que a esquerda está divorciada do mundo real e atualmente se ocupa de discutir o sexo dos anjos.
Curiosamente, o imediatismo e falta de paciência são os verdadeiros inimigos da esquerda, e não um inimigo imaginário chamado fascismo. A história traz lições preciosas contra esse ímpeto revolucionário juvenil. Tal qual os franceses aprenderam, cortar a cabeça de um monarca pode ser o estopim para que surja um napoleão ainda mais despótico.
Ao tentar forçar uma agenda para ontem, os próprios social justice warriors possibilitam que surja uma reação com igual intensidade em sentido contrário. E não é justamente isso que está acontecendo ao redor do globo com a ascensão de bandeiras conservadoras?
Enfim, nada nesses apontamentos conduz à conclusão de que não devem existir personagens gays na cultura pop, ou que as "minorias" devem ser esquecidas pelo bem de personagens arquetipicamente consolidados como o homem do cavalo branco que salva a donzela em apuros. O problema não reside em fazer ou não, mas como fazer.
Um exemplo bem ilustrativo de minorias que são bem inseridas e com bons resultados vem dos livros de Percy Jackson do autor Rick Riordan, do qual sou grande fan. A título de exemplo, no universo de Riordan já fomos apresentados a Nico di Angelo, um personagem filho de Hades que tem um romance com um outro semideus filho de Apolo. Aliás, o próprio Apolo é retratado como um deus que já experenciou vários romances ao longo das eras indistintamente com homens e mulheres. Na saga dos deuses nórdicos do mesmo autor também somos apresentados a uma filha de Loki que oscila entre os dois sexos, fora outra protagonista adepta da religião islâmica que passa por várias dificuldades por ter que vivenciar suas aventuras durante o mês do Ramadã, experimentando uma certa vulnerabilidade nas batalhas devido ao jejum.
Mas vejam só que interessante. A primeira vista os conservadores mais desavisados podem achar essa descrição lotada de lacração até o talo, mas todos esses elementos funcionam e estão muito bem posicionados dentro daquele universo. Como mencionado, condições dos personagens como a necessidade de jejuar no Ramadã ou a sexualidade (Originalmente na mitologia nórdica Loki também era um deus metamorfo de sexualidade fluída), são trazidas ao enredo servindo a um propósito que enriquece a história.
O mundo mudou. Hoje Jim Parsons recebe a bagatela de um milhão de dólares por cada episódio de Big Bang Theory, e o fato do ator ser gay não impediu que além do salário milhonário ele fosse o protagonista do maior sucesso de audiência da TV americana dos últimos 12 anos, com números que batem inclusive Game of Thrones.
O ponto é... ao passo que vemos de um lado uma militância de esquerda insatisfeita por que uma atriz não tem tanta melanina como eles gostariam, ou qualquer problematização hiperbólica que eles gostam, também há por parte de uma ala direitista a errônea percepção de que qualquer inclusão de uma minoria tem que ser denunciada como tentativa de patrulha esquerdista. Da minha perspectiva tratam-se de grupos equivocados que fariam melhor em tentar avaliar a qualidade de um produto pelo conjunto da obra e não exclusivamente por critérios políticos prefixados.
Se havemos de discutir a sério questões como as liberdades de pessoas gays, que ao menos se reconheça o óbvio: o bem estar de um homossexual aumenta exponencialmente tanto mais o país que ele vive se aproxime do liberalismo. Cuba está lá que não me deixa mentir.
Enfim, essas breves considerações estão longe de esgotar o assunto. Tenho esperança de com esse texto ter causado reações despudoradas tanto à direita como à esquerda.
Hoje um dos campos mais visados por esses arquitetos das transformações sociais é o campo do entretenimento. Em prol da ideologia, estabelecem-se critérios daquilo que é publicável ou não, consumível ou não, num cenário onde qualquer comparação com 1964 passa a ser bem mais que liberdade poética.
Ao fim da ditadura militar, quem chegou a trazer essa ideia da mídia como a nova força responsável pela censura foi justamente o saudoso Raul Seixas, que aliás era um indivíduo que podia falar de censura com muito conhecimento de causa. Contemple a letra de uma de suas últimas gravações e então observe o grau de insatisfação que o cantor manifestava àquele tempo:
O Best Seller do momento
É um livro agourento
Que ninguém entende mas
Todo mundo quer ler
Ler pra ter cultura
e como acabaram com a censura
A mídia agora é o nosso Aiatolá
***
Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa com o mocinho
E o Best Seller vai pra milésima edição
***
Se já não existe inteligência
Então vamos bater continência
pra esse indício De resquício militar
(um, dois, três, quatro)
E como é tudo a mesma merda,
Antes que chegue a vida eterna
Eu vou pedir asilo ao Paraguai
(trechos da música Best Seller presente no último disco de Raul Seixas e Marcelo Nova - A Panela do Diabo 1989).
Além de contestar o papel da mídia como o Aiatolá de 1989, a angústia de Raul quanto ao controle ideológico de suas obras foi representada em diversas letras de sua carreira em diversos momentos diferentes, antes ou depois da ditadura. Outro exemplo é o protesto na famosa letra do carimbador maluco de 1983:
Plunct Plact Zum
Não vai a lugar nenhum!!
Tem que ser selado,
registrado,
carimbado,
avaliado,
rotulado
se quiser voar!
Se quiser voar.
Graças a outras formas de controle ideológico, o fato de ter saído de uma censura governamental não resultou em um estado satisfatório para esse pioneiro do rock. Tendo isso como pano de fundo, pergunta-se: -- Como então ele avaliaria o atual grau de imposição da militância politicamente correta na mídia atual?
Para que não restem dúvidas sobre a condição de patrulha ideológica que vivenciamos, comecemos por exemplificar nosso raciocínio com uma polêmica recente envolvendo a atriz Scarlett Johansson. Rub & Tug seria um filme que tinha em seu enredo um protagonista trans e que seria interpretado pela mesma intérprete da viúva negra.
Parecia uma fórmula que agradaria os mais exigentes de todos os mundos... havia um protagonista trans... havia uma atriz da classe AAA de Hollywood que atuou numa equipe com um legado ainda indizível na cultura cinematográfica... tudo parecia muito bom, mas não para os patrulheiros ideológicos. Para estes o personagem deveria ser interpretado por um ator também trans.
O resultado? Tão massiva foi a pressão que Scarlett acabou se desligando da produção e pouco tempo depois já nem se sabia se tais desventuras não resultariam no próprio cancelamento do filme.
Encaremos a realidade. Com a participação de Scarlett Johansson o filme realmente tinha um absurdo potencial. (falo como jeek consumidor de blockbusters). Mas eu com certeza não seria o único, por que eu conheço mais gente da minha estirpe, esse público nerd pra quem qualquer filme ganha o dobro do Hype só por ter a participação de qualquer um dos vingadores. O público assistiria, a produção lucraria, sequências poderiam ser pensadas, o tema seria visto com interesse pelos concorrentes... a militância jamais reconhecerá, mas a celeuma foi um tiro no próprio pé.
O cinema nacional por sua vez não fica longe dessas ladainhas. Veja-se a recente confusão sobre a atriz Taís Araújo no filme da "cientista" Joana D'arc Felix. A história da mulher pobre que virou PhD em Harvard (EUA), teve de ser abortada por conta de um descontentamento em comunidades, grupos e redes sociais. Pessoas alegaram que o tom de pele de Taís seria mais claro do que o da cientista, e que uma outra atriz mereceria o papel.
Mas veja que impressionante... no decorrer da presente semana esse projeto também foi pras cucuias. Segundo apurou o jornal Estado de São Paulo, Joana D'arc teve formação exclusiva no Brasil, nunca fez um pós doutorado e jamais teve um diploma de Harvard. Tais constatações em nada diminuem Joana como profissional, mas certamente comprometem a ideia de usá-la como modelo para pessoas pobres que pretendam estudar em Harvard.
Soma-se a esse episódio alguns outros que já ocuparam as atenções da mídia nacional, como a importantíssima discussão da etnia de Carlos Marighella, e então a conclusão que se impõe é que a esquerda está divorciada do mundo real e atualmente se ocupa de discutir o sexo dos anjos.
Curiosamente, o imediatismo e falta de paciência são os verdadeiros inimigos da esquerda, e não um inimigo imaginário chamado fascismo. A história traz lições preciosas contra esse ímpeto revolucionário juvenil. Tal qual os franceses aprenderam, cortar a cabeça de um monarca pode ser o estopim para que surja um napoleão ainda mais despótico.
Ao tentar forçar uma agenda para ontem, os próprios social justice warriors possibilitam que surja uma reação com igual intensidade em sentido contrário. E não é justamente isso que está acontecendo ao redor do globo com a ascensão de bandeiras conservadoras?
Enfim, nada nesses apontamentos conduz à conclusão de que não devem existir personagens gays na cultura pop, ou que as "minorias" devem ser esquecidas pelo bem de personagens arquetipicamente consolidados como o homem do cavalo branco que salva a donzela em apuros. O problema não reside em fazer ou não, mas como fazer.
Um exemplo bem ilustrativo de minorias que são bem inseridas e com bons resultados vem dos livros de Percy Jackson do autor Rick Riordan, do qual sou grande fan. A título de exemplo, no universo de Riordan já fomos apresentados a Nico di Angelo, um personagem filho de Hades que tem um romance com um outro semideus filho de Apolo. Aliás, o próprio Apolo é retratado como um deus que já experenciou vários romances ao longo das eras indistintamente com homens e mulheres. Na saga dos deuses nórdicos do mesmo autor também somos apresentados a uma filha de Loki que oscila entre os dois sexos, fora outra protagonista adepta da religião islâmica que passa por várias dificuldades por ter que vivenciar suas aventuras durante o mês do Ramadã, experimentando uma certa vulnerabilidade nas batalhas devido ao jejum.
Mas vejam só que interessante. A primeira vista os conservadores mais desavisados podem achar essa descrição lotada de lacração até o talo, mas todos esses elementos funcionam e estão muito bem posicionados dentro daquele universo. Como mencionado, condições dos personagens como a necessidade de jejuar no Ramadã ou a sexualidade (Originalmente na mitologia nórdica Loki também era um deus metamorfo de sexualidade fluída), são trazidas ao enredo servindo a um propósito que enriquece a história.
O mundo mudou. Hoje Jim Parsons recebe a bagatela de um milhão de dólares por cada episódio de Big Bang Theory, e o fato do ator ser gay não impediu que além do salário milhonário ele fosse o protagonista do maior sucesso de audiência da TV americana dos últimos 12 anos, com números que batem inclusive Game of Thrones.
O ponto é... ao passo que vemos de um lado uma militância de esquerda insatisfeita por que uma atriz não tem tanta melanina como eles gostariam, ou qualquer problematização hiperbólica que eles gostam, também há por parte de uma ala direitista a errônea percepção de que qualquer inclusão de uma minoria tem que ser denunciada como tentativa de patrulha esquerdista. Da minha perspectiva tratam-se de grupos equivocados que fariam melhor em tentar avaliar a qualidade de um produto pelo conjunto da obra e não exclusivamente por critérios políticos prefixados.
Se havemos de discutir a sério questões como as liberdades de pessoas gays, que ao menos se reconheça o óbvio: o bem estar de um homossexual aumenta exponencialmente tanto mais o país que ele vive se aproxime do liberalismo. Cuba está lá que não me deixa mentir.
Enfim, essas breves considerações estão longe de esgotar o assunto. Tenho esperança de com esse texto ter causado reações despudoradas tanto à direita como à esquerda.
Wednesday, March 20, 2019
Menos Dilma, mais Betina. A mentalidade anticapitalista no Brasil.
O caos não é um abismo. O caos é uma escada. Muitos que a tentam escalar, falham e nunca mais tentam de novo. A queda quebra eles. E a alguns é dada a chance de subir, eles se agarram ao reino ou aos deuses ou ao amor. Apenas a escada é real. A escalada é tudo o que existe.
Game of Thrones , Petyr Baelish.
A famosa frase "o caos é uma escada" me voltou à mente quando eu estava fazendo um retrospecto da economia do governo Dilma. Ao contemplar o estado lastimável que o Brasil se encontrava poucos anos atrás a visão do caos como escada era uma ilustração bastante adequada, com a diferença que a escada brasileira só apresentava uma direção descendente.
Hoje essa revisitação do nosso passado recente é bem justificada, tanto mais se pensarmos que na presente semana o índice bovespa atingiu a marca histórica de 100 mil pontos, o que equivale a um outdoor brilhante e gigantesco gritando para os investidores: compre bovespa!
E como eu sei isso? Ora, eu também sou investidor, é assim que eu sei.
Me propus a escrever o presente texto por que voltou às rodas de discussão o tema alta da bovespa e a relação que isso tem com as pessoas comuns, o açougueiro; o padeiro; o pedreiro; e até mesmo e principalmente você.
O nosso problema: No Brasil impera a mentalidade anticapitalista. Caso você não viva em uma bolha, você já deve ter se deparado com declarações tipo: O mercado só tem especuladores! A bolsa só interessa aos rentistas! Aliás... não tem como não escrever estas frases sem lembrar da deprimente figura de Ciro Gomes, um candidato que assustadoramente tinha chances concretas de vencer a eleição.
Mas vamos ao que interessa. Se você não está comprado em bovespa, você ainda teria alguma razão para comemorar a atual valorização?
Para responder a esta pergunta tentemos primeiramente explorar a hipótese oposta. Para tanto, considere que em lugar de um movimento ascendente nós embarcamos em uma tendência baixista no mercado.
Continuando, passa-se algum tempo e você vê o ibovespa a 70 mil pontos, a 60 mil pontos, a 50 mil pontos, a 40 mil pontos...
Me diga, qual informação você extrai desses números?
Agora você é um saudita que está procurando diversificar seus investimentos. Você abre as cinco telas do seu computador para contemplar todos os números da economia e você se depara com aquele quadro apresentado, qual seja, nossa bolsa de valores derretendo. O que você faz?
Adicione outro elemento: Agora você olha em uma das telas e você encontra a bolsa de Tókyo ou alguma outra fazendo o movimento inverso... nos últimos anos a hipotética bolsa acumulou altas sucessivas e no último mês ela ultrapassou sua própria marca histórica; além disso, os analistas gráficos estão todos eufóricos com uma formidável superação de uma resistência no gráfico com força e volume acima da média.
Pergunta-se: por qual razão você decidiria alocar seus recursos em um país com uma economia recessiva e notórios prejuízos em lugar de um em que se verifica uma economia pujante?
É de suma importância que se responda corretamente este questionamento. Sem uma correta compreensão do que se passa no mundo real da economia diversos erros são possíveis e com consequências nefastas para todo um país. Vamos então para alguns dados afim de que o exemplo possa ser mais facilmente assimilável.
Segundo o relatório Economática, de 2011 a 2015 as empresas brasileiras negociadas na bovespa perderam mais de 1 trilhão de dólares em valor de mercado. Na noite mais densa em meio ao governo de Dilma Rousseff o índice bovespa caiu até os 37 mil pontos, valor que equivale a quase 1/3 da sua cotação atual.
Aqui chamamos sua atenção para o exemplo trabalhado... você está diante dos números buscando chegar a uma conclusão se vale a pena ou não investir no país.
Há ainda uma importante variável a se considerar, uma importante correlação conhecida pelos investidores entre o índice bovespa e a cotação do dólar. Via de regra a bolsa cai quando o dólar sobe e o dólar cai quando a bolsa sobe. Embora não se trate de um cálculo exato, tal se dá, por exemplo, quando investidores internacionais estão vendendo suas posições em BOVA e se posicionando defensivamente em dólares.
A incidência desse fenômeno ficou muito bem demonstrada durante o governo Dilma. Em 2016 o portal Época negócios noticiava que O Ibovespa teve uma queda de 47,5%, enquanto o dólar se valorizou 43% em relação ao real.
Há aqui então um critério mais facilmente assimilável para o público leigo. Quando há desvalorização do real perante o dólar existe um reflexo bastante perceptível em diversos itens da economia, desde produtos de alta tecnologia produzidos no exterior até itens básicos de subsistência como trigo e fertilizantes. Se o dólar encarece, sua carteira sofre.
Este já deveria ser um argumento suficiente, pois se as empresas brasileiras (das quais o Ibov é um termômetro) estão atraindo investimentos externos, então devemos observar bastantes efeitos benéficos na economia, principalmente na formação de preços correlacionados ao dólar, começando do seu pãozinho francês.
Mas a questão não se esgota por aí. Lembre-se do exemplo que ilustramos, o investidor saudita olhando os números e decidindo alocações de investimentos... quando você reconhece que não tem qualquer direito natural de exigir que ele traga investimentos ao Brasil, e que há outros países igualmente interessados em atrair recursos adicionais para suas economias, então você começa a ter um real vislumbre de como a verdadeira economia funciona.
Vou detalhar um pouco mais o que acontece na praxe dos investimentos. Sou assinante de um relatório fornecido por uma empresa especializada em identificar oportunidades de negócios. Neste produto são elencados o que podemos chamar "critérios de excelência" que podem nortear quais empresas preenchem melhor os requisitos para atrair o seu dinheiro. São diversos os critérios e quanto mais a empresa pontua, maior as chances do seu investimento ser bem sucedido.
A título de ilustração podemos citar o critério dividendos. Se no relatório eu constato que a empresa analisada distribui dividendos regularmente nos últimos cinco anos, então eu tenho a expectativa de que eu consiga me beneficiar desses dividendos futuramente. Isso obviamente aumenta o valor subjetivo que eu atribuo àquele ativo.
Por outro lado, quanto mais desfavorável for o balanço geral da empresa, menor é a minha expectativa de retornos futuros com esse investimento.
Sabendo como são os critérios que tipicamente definem os rumos do dinheiro, podemos compreender quais as razões que faziam investidores durante o governo Dilma preferirem se posicionar em dólar e não comprar o "risco Brasil". Isso decorria de um sensato ceticismo com a economia e uma salutar aversão a riscos.
Um desdobramento dessa relação entre a fragilidade da economia e a fuga de investidores é melhor compreendida pelo rebaixamento em 2015 do Brasil pela agência de risco Standard & Poor's.
A perda de grau de investimento significa que o país deixou de ser considerado um bom pagador, um lugar recomendável para os investidores aplicarem seu dinheiro.
Na mesma época a desvalorização do real frente ao dólar era constante e isso encerra várias terríveis consequências, contrariamente ao que você ouviu na escola, de que é o real barato que atrai investimentos.
Iremos aproveitar para explicar o que está por detrás do raciocínio de um operador do mercado nesse contexto: Para compreender melhor o que se passava suponha a seguinte dinâmica: você em certo momento possui um milhão de dólares e estava procurando um investimento; você consulta o câmbio brasileiro e percebe que o dólar está cotado a R$ 3,30; ao mesmo tempo você verifica que a ação do Itaú está negociada a R$ 33,00; o que você pode fazer? Trocar seu um milhão de dólares por 3,3 milhões de reais e comprar ações do Itaú. Finalmente seu patrimônio não é mais representado pela cifra de um milhão de dólares, mas por um portifólio de 3,3 milhões de reais em ações do Itaú.
Como estamos trabalhando com as variáveis do governo Dilma considere os números já apresentados anteriormente, quais sejam: uma desvalorização de 47% do ibov (vamos supor que itub4 aconpanhou o índice e não desvalorizou nem mais nem menos), enquanto que o dólar se valorizou 43%. Quais as consequências?
Ora, depois desse apocalipse na economia a minha posição em Itaú hoje estaria valendo cerca de metade do que valia na época da minha entrada, o que é o mesmo que dizer que no caso de venda eu posso arrecadar pouco mais de 50% do meu investimento, algo na casa dos um milhão e seiscentos e cinquenta mil reais; agora devo converter essa quantia para dólar, vez que estou fugindo do mercado brasileiro e quero retomar minha posição dolarizada, já que no meu país o real não tem utilidade.
Mas vejam só... se antes o dólar valia 3,3 reais, hoje ele vale, suponhamos, 43,3 assumindo o cenário dilmista em que o dólar se valorizou 40% em relação ao real.
Qual a consequência? eu precisaria de 4,3 milhões de reais apenas para trocar por dólares e voltar à minha posição inicial de um milhão de dólares, mas ao invés disso eu só possuo 1,65 milhões de reais, o que mal dá pra trocar pela terça parte dos dólares que eu tinha no início do exemplo.
Em síntese, esse teria sido um evento catastrófico, e eu perderia dois terços do meu investimento! Não sei você, mas eu estou realmente muito feliz em não ser essa pessoa, e os investidores internacionais devem estar igualmente aliviados, pois ao terem optado por ficar fora do mercado brasileiro também comprovaram que suas decisões econômicas eram acertadas.
Não fosse a desvalorização do real meu prejuízo hipotético poderia até ser um pouco menor, mas o que é evidente é que me expor em moeda fraca demonstrou ser um péssimo negócio, e pessoas que tem um milhão de dólares não são conhecidas por fazerem péssimos negócios com frequência. Por isso elas fogem do real como o diabo foge da cruz.
Não é espantoso portanto reconhecermos que por ignorar a psicologia e os incentivos por detrás das decisões de investidores, os políticos e burocratas acabam por sujeitar milhões de indivíduos aos efeitos mais nefastos das suas peripécias. E mais, quando a realidade se impõe eles são os primeiros a mascarar tal realidade, vendendo discursos que não tem nenhum lastro no universo dos fatos. Foi basicamente o que ocorreu no episódio da Standard & Poor's quando em 2008 o país conquistou o grau de investimento, episódio freneticamente comemorado por Lula, mas que o mesmo Lula fez pouco de quando a mesma Standard & Poor's rebaixou o Brasil em 2015. Ou seja, a opinião da Standard & Poor's sobre o Brasil é relevante pra elogiar a economia do país, mas quando esta mesma Standard & Poor's desabona nossas decisões econômicas isso não tem importância.
Considerando o exposto, urge que reconheçamos toda a malignidade da retórica anticapitalista, inclusive e principalmente em benefício dos nossos próprios investidores domésticos. Oras, pois você ainda cogitava que isso só guardava conexão exclusivamente com os milionários sauditas? Pois coisa nenhuma! Veja como a sua realidade poderia ser diferente apenas modificando algumas simples decisões num passado não tão distante...
Considere que você tenha o poder de sacar seu FGTS quando você, e não um político, julgar que é hora de sacar o FGTS. Considere ainda que você sacou R$ 10.000 em 2015 e investiu em ações da Magazine Luiza que chegaram a custar 96 centavos por ação naquele ano.
No que isso resultaria? Basicamente você poderia vender uma ação que comprou por menos de um real pelo valor atual de R$ 180, e com isso teria conseguido transformar R$ 10.000 em um milhão e oitocentos mil reais. Surpreso? Pois ao que parece não é necessário ser uma Betina pra conseguir isso.
Porém, dado o fato que são os burocratas que estabelecem critérios para você usar seu FGTS, e do fato de que no Brasil não existe uma cultura de investimentos, (vez que aqui impera a mentalidade anticapitalista), Muita gente perdeu a chance de surfar essa alta.
Mas piora, pois as pessoas da sua cidade que poderiam se beneficiar se você vendesse sua posição em ações para investir em um negócio local também não serão beneficiadas, e você também não vai desfrutar da satisfação de ter feito algo para remediar os lamentosos índices de desemprego que imperam.
O remédio? Combater a mentalidade anticapitalista.
Para nossa lástima no Brasil o número de pessoas encarceradas é maior que o número de pessoas que investem em bolsa. Uma comparação de 2013 apontava que no Brasil a população carcerária era de 0,3%, enquanto que a quantidade de investidores da bolsa estava em torno de 0,29%. Como comparação, nos USA essa proporção fica em 0,73% de população carcerária enquanto que 65% dos americanos investem na bolsa, e a diferença não para por aí. Sabe aqueles profissionais que te ajudam a avaliar o mercado e investir suas economias, digamos, as "Betinas" da vida?
No Brasil, há cerca de 6,8 mil Agentes Autônomos de Investimentos.
Desses, aproximadamente 1,1 mil são pessoas jurídicas.
Esse é um mercado bem pouco explorado quando comparado aos Estados Unidos.
Por lá, mais de 1,3 milhão de pessoas ganham a vida ajudando os americanos a investir melhor o seu dinheiro.
Investidores da bolsa também são os que menos dependem de produtos de bancos. Sabe os banqueiros, aquela raça odiada por esquerdistas? Pois então, se eles quisessem fazer uma oposição aos banqueiros o melhor caminho seria fomentar uma cultura de investimentos.
A desbancarização dos investimentos no Brasil está apenas começando. Hoje 95% dos investimentos dos brasileiros estão nos bancos e só 5% em plataformas digitais. Nos EUA é o contrário: 90% das aplicações estão fora dos bancos.
O fato é: nem toda a retórica anticapitalista do mundo somada tem qualquer poder para gerar um único emprego. O que gera emprego, o que faz aparecer produtos na prateleira bons e baratos, o que permite planejamento a longo prazo... tudo isso é fruto de uma economia responsável, sem peripécias keynesianas no câmbio e com um ambiente propício para os negócios.
Quando o ambiente não é favorável aos investimentos eles desaparecem na velocidade da luz, restando para trás apenas um governo com muita retórica e um povo que precisa trocar uma mala cheia de dinheiro por um único rolo de papel higiênico.
Notas
Tem mais brasileiros na cadeia do que na bolsa; Por que tanta aversão ao mercado acionário?. Infomoney, 2013. disponível em: <https://www.infomoney.com.br/blogs/fora-do-mercado/blog-da-redacao/post/3071109/tem-mais-brasileiros-cadeia-que-bolsa-por-que-tanta-aversao> acesso em 20 mar 2019.
Ferreira, RAMIRO GOMES. Assessor de Investimento: Quem É, O Que Faz e Como Ele É Remunerado. Clube do valor, 2018. disponível em: <https://clubedovalor.com.br/assessor-de-investimento/> acesso em 20 mar 2019.
Magazine Luiza: o segredo da empresa que subiu 15.467% na bolsa. Infomoney, 2018. disponível em: <https://www.infomoney.com.br/magazineluiza/noticia/7557122/magazine-luiza-segredo-empresa-que-subiu-467-bolsa> acesso em 20 mar 2019.
O desempenho do mercado no governo Dilma. Época negócios, 2016. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2016/05/o-desempenho-do-mercado-no-governo-dilma.html> acesso em 20 mar 2019.
Game of Thrones , Petyr Baelish.
A famosa frase "o caos é uma escada" me voltou à mente quando eu estava fazendo um retrospecto da economia do governo Dilma. Ao contemplar o estado lastimável que o Brasil se encontrava poucos anos atrás a visão do caos como escada era uma ilustração bastante adequada, com a diferença que a escada brasileira só apresentava uma direção descendente.
Hoje essa revisitação do nosso passado recente é bem justificada, tanto mais se pensarmos que na presente semana o índice bovespa atingiu a marca histórica de 100 mil pontos, o que equivale a um outdoor brilhante e gigantesco gritando para os investidores: compre bovespa!
E como eu sei isso? Ora, eu também sou investidor, é assim que eu sei.
Me propus a escrever o presente texto por que voltou às rodas de discussão o tema alta da bovespa e a relação que isso tem com as pessoas comuns, o açougueiro; o padeiro; o pedreiro; e até mesmo e principalmente você.
O nosso problema: No Brasil impera a mentalidade anticapitalista. Caso você não viva em uma bolha, você já deve ter se deparado com declarações tipo: O mercado só tem especuladores! A bolsa só interessa aos rentistas! Aliás... não tem como não escrever estas frases sem lembrar da deprimente figura de Ciro Gomes, um candidato que assustadoramente tinha chances concretas de vencer a eleição.
Mas vamos ao que interessa. Se você não está comprado em bovespa, você ainda teria alguma razão para comemorar a atual valorização?
Para responder a esta pergunta tentemos primeiramente explorar a hipótese oposta. Para tanto, considere que em lugar de um movimento ascendente nós embarcamos em uma tendência baixista no mercado.
Continuando, passa-se algum tempo e você vê o ibovespa a 70 mil pontos, a 60 mil pontos, a 50 mil pontos, a 40 mil pontos...
Me diga, qual informação você extrai desses números?
Agora você é um saudita que está procurando diversificar seus investimentos. Você abre as cinco telas do seu computador para contemplar todos os números da economia e você se depara com aquele quadro apresentado, qual seja, nossa bolsa de valores derretendo. O que você faz?
Adicione outro elemento: Agora você olha em uma das telas e você encontra a bolsa de Tókyo ou alguma outra fazendo o movimento inverso... nos últimos anos a hipotética bolsa acumulou altas sucessivas e no último mês ela ultrapassou sua própria marca histórica; além disso, os analistas gráficos estão todos eufóricos com uma formidável superação de uma resistência no gráfico com força e volume acima da média.
Pergunta-se: por qual razão você decidiria alocar seus recursos em um país com uma economia recessiva e notórios prejuízos em lugar de um em que se verifica uma economia pujante?
É de suma importância que se responda corretamente este questionamento. Sem uma correta compreensão do que se passa no mundo real da economia diversos erros são possíveis e com consequências nefastas para todo um país. Vamos então para alguns dados afim de que o exemplo possa ser mais facilmente assimilável.
Segundo o relatório Economática, de 2011 a 2015 as empresas brasileiras negociadas na bovespa perderam mais de 1 trilhão de dólares em valor de mercado. Na noite mais densa em meio ao governo de Dilma Rousseff o índice bovespa caiu até os 37 mil pontos, valor que equivale a quase 1/3 da sua cotação atual.
Aqui chamamos sua atenção para o exemplo trabalhado... você está diante dos números buscando chegar a uma conclusão se vale a pena ou não investir no país.
Há ainda uma importante variável a se considerar, uma importante correlação conhecida pelos investidores entre o índice bovespa e a cotação do dólar. Via de regra a bolsa cai quando o dólar sobe e o dólar cai quando a bolsa sobe. Embora não se trate de um cálculo exato, tal se dá, por exemplo, quando investidores internacionais estão vendendo suas posições em BOVA e se posicionando defensivamente em dólares.
A incidência desse fenômeno ficou muito bem demonstrada durante o governo Dilma. Em 2016 o portal Época negócios noticiava que O Ibovespa teve uma queda de 47,5%, enquanto o dólar se valorizou 43% em relação ao real.
Há aqui então um critério mais facilmente assimilável para o público leigo. Quando há desvalorização do real perante o dólar existe um reflexo bastante perceptível em diversos itens da economia, desde produtos de alta tecnologia produzidos no exterior até itens básicos de subsistência como trigo e fertilizantes. Se o dólar encarece, sua carteira sofre.
Este já deveria ser um argumento suficiente, pois se as empresas brasileiras (das quais o Ibov é um termômetro) estão atraindo investimentos externos, então devemos observar bastantes efeitos benéficos na economia, principalmente na formação de preços correlacionados ao dólar, começando do seu pãozinho francês.
Mas a questão não se esgota por aí. Lembre-se do exemplo que ilustramos, o investidor saudita olhando os números e decidindo alocações de investimentos... quando você reconhece que não tem qualquer direito natural de exigir que ele traga investimentos ao Brasil, e que há outros países igualmente interessados em atrair recursos adicionais para suas economias, então você começa a ter um real vislumbre de como a verdadeira economia funciona.
Vou detalhar um pouco mais o que acontece na praxe dos investimentos. Sou assinante de um relatório fornecido por uma empresa especializada em identificar oportunidades de negócios. Neste produto são elencados o que podemos chamar "critérios de excelência" que podem nortear quais empresas preenchem melhor os requisitos para atrair o seu dinheiro. São diversos os critérios e quanto mais a empresa pontua, maior as chances do seu investimento ser bem sucedido.
A título de ilustração podemos citar o critério dividendos. Se no relatório eu constato que a empresa analisada distribui dividendos regularmente nos últimos cinco anos, então eu tenho a expectativa de que eu consiga me beneficiar desses dividendos futuramente. Isso obviamente aumenta o valor subjetivo que eu atribuo àquele ativo.
Por outro lado, quanto mais desfavorável for o balanço geral da empresa, menor é a minha expectativa de retornos futuros com esse investimento.
Sabendo como são os critérios que tipicamente definem os rumos do dinheiro, podemos compreender quais as razões que faziam investidores durante o governo Dilma preferirem se posicionar em dólar e não comprar o "risco Brasil". Isso decorria de um sensato ceticismo com a economia e uma salutar aversão a riscos.
Um desdobramento dessa relação entre a fragilidade da economia e a fuga de investidores é melhor compreendida pelo rebaixamento em 2015 do Brasil pela agência de risco Standard & Poor's.
A perda de grau de investimento significa que o país deixou de ser considerado um bom pagador, um lugar recomendável para os investidores aplicarem seu dinheiro.
Na mesma época a desvalorização do real frente ao dólar era constante e isso encerra várias terríveis consequências, contrariamente ao que você ouviu na escola, de que é o real barato que atrai investimentos.
Iremos aproveitar para explicar o que está por detrás do raciocínio de um operador do mercado nesse contexto: Para compreender melhor o que se passava suponha a seguinte dinâmica: você em certo momento possui um milhão de dólares e estava procurando um investimento; você consulta o câmbio brasileiro e percebe que o dólar está cotado a R$ 3,30; ao mesmo tempo você verifica que a ação do Itaú está negociada a R$ 33,00; o que você pode fazer? Trocar seu um milhão de dólares por 3,3 milhões de reais e comprar ações do Itaú. Finalmente seu patrimônio não é mais representado pela cifra de um milhão de dólares, mas por um portifólio de 3,3 milhões de reais em ações do Itaú.
Como estamos trabalhando com as variáveis do governo Dilma considere os números já apresentados anteriormente, quais sejam: uma desvalorização de 47% do ibov (vamos supor que itub4 aconpanhou o índice e não desvalorizou nem mais nem menos), enquanto que o dólar se valorizou 43%. Quais as consequências?
Ora, depois desse apocalipse na economia a minha posição em Itaú hoje estaria valendo cerca de metade do que valia na época da minha entrada, o que é o mesmo que dizer que no caso de venda eu posso arrecadar pouco mais de 50% do meu investimento, algo na casa dos um milhão e seiscentos e cinquenta mil reais; agora devo converter essa quantia para dólar, vez que estou fugindo do mercado brasileiro e quero retomar minha posição dolarizada, já que no meu país o real não tem utilidade.
Mas vejam só... se antes o dólar valia 3,3 reais, hoje ele vale, suponhamos, 43,3 assumindo o cenário dilmista em que o dólar se valorizou 40% em relação ao real.
Qual a consequência? eu precisaria de 4,3 milhões de reais apenas para trocar por dólares e voltar à minha posição inicial de um milhão de dólares, mas ao invés disso eu só possuo 1,65 milhões de reais, o que mal dá pra trocar pela terça parte dos dólares que eu tinha no início do exemplo.
Em síntese, esse teria sido um evento catastrófico, e eu perderia dois terços do meu investimento! Não sei você, mas eu estou realmente muito feliz em não ser essa pessoa, e os investidores internacionais devem estar igualmente aliviados, pois ao terem optado por ficar fora do mercado brasileiro também comprovaram que suas decisões econômicas eram acertadas.
Não fosse a desvalorização do real meu prejuízo hipotético poderia até ser um pouco menor, mas o que é evidente é que me expor em moeda fraca demonstrou ser um péssimo negócio, e pessoas que tem um milhão de dólares não são conhecidas por fazerem péssimos negócios com frequência. Por isso elas fogem do real como o diabo foge da cruz.
Não é espantoso portanto reconhecermos que por ignorar a psicologia e os incentivos por detrás das decisões de investidores, os políticos e burocratas acabam por sujeitar milhões de indivíduos aos efeitos mais nefastos das suas peripécias. E mais, quando a realidade se impõe eles são os primeiros a mascarar tal realidade, vendendo discursos que não tem nenhum lastro no universo dos fatos. Foi basicamente o que ocorreu no episódio da Standard & Poor's quando em 2008 o país conquistou o grau de investimento, episódio freneticamente comemorado por Lula, mas que o mesmo Lula fez pouco de quando a mesma Standard & Poor's rebaixou o Brasil em 2015. Ou seja, a opinião da Standard & Poor's sobre o Brasil é relevante pra elogiar a economia do país, mas quando esta mesma Standard & Poor's desabona nossas decisões econômicas isso não tem importância.
Considerando o exposto, urge que reconheçamos toda a malignidade da retórica anticapitalista, inclusive e principalmente em benefício dos nossos próprios investidores domésticos. Oras, pois você ainda cogitava que isso só guardava conexão exclusivamente com os milionários sauditas? Pois coisa nenhuma! Veja como a sua realidade poderia ser diferente apenas modificando algumas simples decisões num passado não tão distante...
Considere que você tenha o poder de sacar seu FGTS quando você, e não um político, julgar que é hora de sacar o FGTS. Considere ainda que você sacou R$ 10.000 em 2015 e investiu em ações da Magazine Luiza que chegaram a custar 96 centavos por ação naquele ano.
No que isso resultaria? Basicamente você poderia vender uma ação que comprou por menos de um real pelo valor atual de R$ 180, e com isso teria conseguido transformar R$ 10.000 em um milhão e oitocentos mil reais. Surpreso? Pois ao que parece não é necessário ser uma Betina pra conseguir isso.
Porém, dado o fato que são os burocratas que estabelecem critérios para você usar seu FGTS, e do fato de que no Brasil não existe uma cultura de investimentos, (vez que aqui impera a mentalidade anticapitalista), Muita gente perdeu a chance de surfar essa alta.
Mas piora, pois as pessoas da sua cidade que poderiam se beneficiar se você vendesse sua posição em ações para investir em um negócio local também não serão beneficiadas, e você também não vai desfrutar da satisfação de ter feito algo para remediar os lamentosos índices de desemprego que imperam.
O remédio? Combater a mentalidade anticapitalista.
Para nossa lástima no Brasil o número de pessoas encarceradas é maior que o número de pessoas que investem em bolsa. Uma comparação de 2013 apontava que no Brasil a população carcerária era de 0,3%, enquanto que a quantidade de investidores da bolsa estava em torno de 0,29%. Como comparação, nos USA essa proporção fica em 0,73% de população carcerária enquanto que 65% dos americanos investem na bolsa, e a diferença não para por aí. Sabe aqueles profissionais que te ajudam a avaliar o mercado e investir suas economias, digamos, as "Betinas" da vida?
No Brasil, há cerca de 6,8 mil Agentes Autônomos de Investimentos.
Desses, aproximadamente 1,1 mil são pessoas jurídicas.
Esse é um mercado bem pouco explorado quando comparado aos Estados Unidos.
Por lá, mais de 1,3 milhão de pessoas ganham a vida ajudando os americanos a investir melhor o seu dinheiro.
Investidores da bolsa também são os que menos dependem de produtos de bancos. Sabe os banqueiros, aquela raça odiada por esquerdistas? Pois então, se eles quisessem fazer uma oposição aos banqueiros o melhor caminho seria fomentar uma cultura de investimentos.
A desbancarização dos investimentos no Brasil está apenas começando. Hoje 95% dos investimentos dos brasileiros estão nos bancos e só 5% em plataformas digitais. Nos EUA é o contrário: 90% das aplicações estão fora dos bancos.
O fato é: nem toda a retórica anticapitalista do mundo somada tem qualquer poder para gerar um único emprego. O que gera emprego, o que faz aparecer produtos na prateleira bons e baratos, o que permite planejamento a longo prazo... tudo isso é fruto de uma economia responsável, sem peripécias keynesianas no câmbio e com um ambiente propício para os negócios.
Quando o ambiente não é favorável aos investimentos eles desaparecem na velocidade da luz, restando para trás apenas um governo com muita retórica e um povo que precisa trocar uma mala cheia de dinheiro por um único rolo de papel higiênico.
Notas
Tem mais brasileiros na cadeia do que na bolsa; Por que tanta aversão ao mercado acionário?. Infomoney, 2013. disponível em: <https://www.infomoney.com.br/blogs/fora-do-mercado/blog-da-redacao/post/3071109/tem-mais-brasileiros-cadeia-que-bolsa-por-que-tanta-aversao> acesso em 20 mar 2019.
Ferreira, RAMIRO GOMES. Assessor de Investimento: Quem É, O Que Faz e Como Ele É Remunerado. Clube do valor, 2018. disponível em: <https://clubedovalor.com.br/assessor-de-investimento/> acesso em 20 mar 2019.
Magazine Luiza: o segredo da empresa que subiu 15.467% na bolsa. Infomoney, 2018. disponível em: <https://www.infomoney.com.br/magazineluiza/noticia/7557122/magazine-luiza-segredo-empresa-que-subiu-467-bolsa> acesso em 20 mar 2019.
O desempenho do mercado no governo Dilma. Época negócios, 2016. Disponível em: <https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2016/05/o-desempenho-do-mercado-no-governo-dilma.html> acesso em 20 mar 2019.
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