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Friday, January 29, 2021

Livre mercado de energia reduziria em 30% as contas de luz

Neste início de 2021 um estudo capitaneado pela Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia entregou para os órgãos reguladores do setor um estudo prevendo uma economia de 30% nas contas de energia elétrica caso sejam implantadas medidas de abertura do mercado brasileiro de eletricidade.

Segundo o estudo, seria possível implementar essa abertura oferecendo ao consumidor a chance de escolher os fornecedores de energia, fazendo com que o preço seja drasticamente afetado pelo cenário de livre concorrência.

Essa abertura não apenas traria benefícios na diminuição dos custos da conta de luz, como até mesmo permitiria que o consumidor escolhesse se prefere receber sua energia de fontes de energia limpa, como solar ou eólica. Atualmente somente empresas que consomem um mínimo de 2.000 watts usufruem dessa liberdade de contratação.

Curiosamente, esta é uma discussão que sempre traz grandes embates entre estatistas e entusiastas do livre mercado. Os defensores das concessões monopolistas proclamam aos quatro ventos que o mercado por si só não é capaz de oferecer soluções viáveis para problemas de grande escala, como seriam os investimentos em energia elétrica. Para estes estatistas, apenas o estado outorgando concessões monopolistas poderia trazer os incentivos para que empreendedores privados arriscassem seu capital neste tipo de negócio.

No entanto, os estatistas ignoram o fato de que esse modelo de mercado aberto de energia já é uma realidade em diversos países, como Canadá, Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia, que a propósito, também são países bastante conhecidos por promover um ambiente de liberdade econômica e geração de riqueza.

No arranjo brasileiro, as empresas envolvidas investem muito pouco em capital e usufruem de lucros absurdos. Inclusive, especialistas em investimentos costumam apontar para as concessionárias de energia como empresas pagadoras de gordos dividendos, justamente porque sua posição de conforto lhes possibilita ter um caixa muito alto enquanto que suas contrapartidas são realmente pífias.

Por tais fatores, os auto proclamados justiceiros sociais deveriam ser os primeiros a exigir o fim desse arranjo nefasto. Afinal, capitalistas especuladores usam dessas empresas monopolistas como fonte de lucro fácil e quase sem riscos, e tudo isso às custas das elevadas taxas de energia que são pagas pelas famílias mais pobres.

No entanto, não estranhe se nos próximos dias vierem a público uma horda de partidos vermelhos condenando a abertura de mercado do setor elétrico. Como já dito, eles precisam a todo custo sustentar a narrativa de que você necessita do estado, e que sem a intervenção de políticos benevolentes você estaria completamente nas trevas ou no máximo tendo sua casa abastecida por lamparinas.

Assim mesmo, uma das irônicas consequências é que os mesmos defensores desse arranjo perverso não perdem a menor chance de culpar o capitalismo por todos os problemas que atingem o arranjo vigente, que é por eles tão ardentemente defendido. Deste modo, problemas como os que acometeram o Amapá imediatamente são anunciados pela esquerda como sendo uma falha de mercado que precisa ser corrigida pelo estado interventor, embora seja o próprio estado, suas licitações e estruturas perversas de incentivos quem de fato gera todo esse cenário escabroso.

Na esteira do que já foi dito sobre altos custos de energia, convém recordar que recentemente chegou a circular na imprensa um quadro comparativo em que o Brasil figurava como o 37º país que mais cobra pelos serviços de luz, o que chega ser quase inexplicável, dado todo o potencial hídrico brasileiro.

Nas causas por detrás desse descalabro podemos citar a desavergonhada incidência de impostos como o PIS/COFINS, além da famosa socialização dos prejuízos, como os famosos gatos de luz cujos custos são prontamente repassados pelas empresas para que sejam quitados pelo consumidor comum.

Outras razões de queixa ainda incluem a instabilidade e interrupções na distribuição de energia, o que invariavelmente implica em prejuízos para empresas tanto em maquinário, como em estoques que necessitam de constante refrigeração. O irônico é que as empresas são justamente aquelas que arcam com as contas elétricas com as tarifas mais caras, já que no Brasil é praticamente crime empreender e gerar riqueza.

Some-se a esse arranjo perverso as constantes alterações de bandeiras tarifárias e você terá um cenário que desmotiva qualquer um que queira empreender e calcular custos de uma forma minimamente racional e coerente. Sim, todo esse sistema perverso de monopólios impacta de forma infernal as possibilidades de negócios no país.

Vale menção ainda que a maldição do setor elétrico chega a influenciar até mesmo o cenário das criptomoedas. Os nerds de plantão que já tiveram a curiosidade de calcular os custos de investir em mineração de bitcoin ou Ethereum sabem bem que as tarifas cobradas no Brasil torna praticamente proibitivo o funcionamento de máquinas de mineração por aqui.

Por todo o exposto, fica mais do que claro que o Brasil necessita urgentemente das tão anunciadas reformas e abertura comercial, as quais raramente saem do papel.

Caso porém esse novo projeto realmente vingue, e se realmente as tarifas de energia tiverem um barateamento na ordem dos 30%, esse será um claro motivo para comemoração por parte dos amantes da liberdade.


Friday, May 31, 2019

Refutando o mito do socialismo escandinavo.

Nota
Esse texto é basicamente um compilado de diversos argumentos de artigos diferentes do Instituto Mises Brasil. Meu único trabalho foi criar um compilado que abrangesse um panorama geral sobre os países nórdicos que são sempre objetos de debate político, os quais são também abordados caso a caso em artigos temáticos específicos no IMB com uma boa gama de informações adicionais.

***

    Todos queremos ser a Escandinávia... será mesmo?


A social-democracia é um arranjo paradoxal: embora ela seja vista como
a salvação dos pobres, ela só pode funcionar — e ainda assim
temporariamente — em países de população rica.
E o motivo é simples: para que um estado de bem-estar social — no qual
o governo cuida de todos por meio de altos gastos sociais e ainda
fornece vários serviços "gratuitos" — funcione, o governo tem de
tributar pesadamente a população.
    E para que essa alta carga tributária não afete a criação de riqueza
da economia, essa população tem de ser extremamente produtiva e
possuir uma alta renda per capita. Ela tem de produzir a taxas cada
vez maiores, e já ter uma grande riqueza acumulada, para poder ser
pesadamente tributada pelo governo e ainda conseguir manter seu padrão
de vida. Só assim ela poderá arcar com a alta carga tributária
necessária para bancar o estado de bem-estar social.
    Caso contrário, se a produtividade não for crescente, o governo estará
confiscando riqueza a uma taxa maior do que ela é criada. E aí a
pesada tributação fará a riqueza definhar. E se a renda per capita não
for alta o bastante, simplesmente não haverá como o governo continuar
tributando para manter o estado de bem-estar social.
    Uma coisa é o governo tributar pesadamente uma população já rica e
produtiva; outra, completamente oposta, é o governo querer fazer o
mesmo com uma população pobre e pouco produtiva. Para efeitos de
comparação, onde você acha que seria mais fácil manter um estado de
bem-estar social: na Suíça ou no Haiti?
    Obviamente, tributar apenas os "ricos" para então bancar todo o resto
da população "não-rica" é algo numericamente impossível, pois
simplesmente não há, em nenhum país do mundo, ricos em quantidade
suficiente para serem continuamente tributados e custearem sozinhos os
gigantescos gastos efetuados pelos estados assistencialistas
ocidentais.
    Portanto, para a social-democracia se manter, toda a população tem de
ser rica e muito produtiva.
    Consequentemente, uma social-democracia, para se manter, tem de criar
um arcabouço amplamente liberal em termos de economia de mercado: as
pessoas têm de ser extremamente livres para investir, produzir e criar
riqueza; o ambiente burocrático e regulatório tem de ser leve e pouco
intrusivo; a facilidade de empreendimento tem de ser máxima; o
respeito à propriedade privada tem de ser total (caso contrário, não
haverá investimentos); os investimentos estrangeiros têm de ser
liberados.
    O melhor exemplo prático, obviamente, são os países nórdicos, os quais
seguem à risca essas regras: seu ambiente empreendedorial é
extremamente desregulamentado e os países são um dos mais abertos do
mundo para o livre comércio. Demora-se no máximo 6 dias para abrir um
negócio e as tarifas de importação estão na casa de 1,3%, na média. A
dívida pública é baixa, o que significa que o governo não estoura o
orçamento. Não há salário mínimo estipulado pelo governo. Há uma
robusta proteção dos direitos de propriedade. As alíquotas de imposto
de renda para pessoa jurídica são das mais baixas do mundo. Não há
impostos sobre a herança.
    Todas as atuais sociais-democracias do mundo seguiram o mesmo ritual:
primeiro elas enriqueceram por meio de uma economia de mercado
amplamente desregulamentada; depois, só depois, adotaram um estado de
bem-estar social.

Entra a Finlândia

    Antes de a social-democracia ter se radicalizado nos países nórdicos
ao final da década de 1960, a carga tributária destes países era de
aproximadamente 30% do PIB — valor muito próximo ao de outros países
desenvolvidos.  À época, todo esse fardo tributário era bastante
visível, pois a maior parte da tributação se dava por meio de impostos
diretos, os quais apareciam no contracheque dos empregados.
    Ao longo do tempo, uma fatia cada vez maior da tributação passou a ser
arrecadada por meio de impostos indiretos. Estes são bem menos
visíveis para os que arcam com eles, uma vez que tais impostos ou são
cobrados antes de o salário ser formalmente pago ao empregado, ou já
estão incluídos nos preços dos bens de consumo.
    A Finlândia é um exemplo bem interessante dessa política.
A carga tributária do país era de 30% do PIB em 1965. Os impostos
indiretos, tanto na forma de VAT (imposto sobre o valor agregado,
essencialmente um imposto sobre vendas) quanto de contribuições
compulsórias para a previdência social, equivaliam a 25% da tributação
total.
    Atualmente, a carga tributária total já está 44% do PIB, sendo que
metade disso está na forma de impostos indiretos (ou, utilizando um
termo mais apropriado, impostos ocultos).

    Ou seja: para manter o estado de bem-estar social, o governo finlandês
passou a tributar, de maneira crescente, toda a população. Isso era
inevitável.
    Mas mesmo este arranjo também não tem como ser duradouro. Há um fator
crucial que simplesmente não pode ser ignorado, e o qual pode fazer
todo o arranjo sucumbir: a demografia.
    Mesmo as mais bem azeitadas sociais-democracias não podem contornar
esta realidade: se a população parar de crescer, não haverá uma
quantidade suficientemente grande de indivíduos para serem tributados
no futuro para bancar os mais velhos, os aposentados e os mais pobres.
    Consequentemente, todo o estado de bem-estar social entra em risco.
De novo: mesmo os mais bem gerenciados estados assistencialistas terão
de lidar com um futuro desafiador por causa das mudanças demográficas.
    Volumosos programas de redistribuição só funcionam se houver uma
quantidade suficientemente grande de pagadores de impostos para bancar
as prometidas redistribuições.
E, na Finlândia, a quantidade futura de pagadores de impostos está
secando. Uma recente reportagem da Bloomberg relata que os políticos e
economistas do país estão profundamente preocupados com o fato de que
não haverá um número suficiente de pagadores de impostos no futuro
para financiar o extravagante estado assistencialista do país. A
Finlândia está vivenciando uma "escassez de bebês".
    Em 2016, o país teve o menor número de partos em 148 anos — ou desde a
grande fome de 1868. A taxa de fecundidade da Finlândia caiu para 1,57
filho por mulher, e o percentual de pessoas com 20 anos de idade ou
menos em relação à população em idade de trabalhar é de 40%. Era de
60% em 1970. Ou seja, a base da pirâmide etária encolheu
acentuadamente, ao passo que o topo está só aumentando.
    A situação pegou os economistas do país de surpresa. Eles não só não
têm nenhuma solução para isso, como ainda se mostram um tanto
desesperados. Para Heidi Schauman, economista-chefe do Aktia Bank, as
estatísticas são "assustadoras". Como ele próprio explica: "Essas estatísticas mostram quão rapidamente nossa sociedade está
mudando, e não temos nenhuma solução para evitar esse fenômeno. Temos
um setor público grande e o sistema precisa de pagadores de impostos".
    O economista claramente não percebeu a deliciosa ironia contida na
última frase de sua declaração, a qual revela explicitamente a
essência dos estados modernos: a função do setor público é apenas se
servir das pessoas.
    Sem a capacidade de expropriar eternamente capitalistas e
empreendedores ricos, o estado de bem-estar social passa a ser apenas
uma máquina ensandecida cujo único propósito é perpetuar a própria
existência devorando quantidades maciças de impostos extraídos das
próprias pessoas a quem ele diz estar servindo.
    Se a tendência demográfica ameaça a existência dessa máquina, bem,
então mais pessoas devem ser geradas apenas para continuar alimentando
esse mecanismo. Isso lembra o enredo do filme Matrix.
    Com suas baixas taxas de fecundidade, a demografia já é uma
preocupação em todo o mundo desenvolvido. Mas as atuais tendências
demográficas são particularmente problemáticas para países com
generosos estados de bem-estar social, uma vez que uma baixa
fecundidade coloca em risco a própria sobrevivência do sistema.
    Os "beneficiários" das mais avançadas sociais-democracias não estão se
reproduzindo em quantidade suficiente para bancar os benefícios que
estão recebendo. Consequentemente, estão "colocando em risco" a
sobrevivência de longo prazo dos mais generosos estados
assistencialistas.
    Por outro lado, é importante ressaltar que mudanças demográficas não
necessariamente geram problemas econômicos e fiscais. Hong Kong e
Cingapura possuem taxas de fecundidade extremamente baixas, mas não
estão enfrentando problemas. Motivo: suas economias são maciçamente
livres e não são oneradas por estados assistencialistas de estilo
ocidental.

    Dentre todos os desafios para a adoção de um estado de bem-estar social, devemos nos atentar para o fato de que nem todos os países nórdicos possuem características facilmente replicáveis. A Noruega constitui um exemplo bastante sui generis, devido ao fato
de 22% de seu PIB se dever ao petróleo e ao gás, poucos pontos
percentuais abaixo da Venezuela. Então, a menos que a proposta dos
progressistas dependa de o país boiar sobre petróleo, o exemplo da
Noruega não é replicável.
    O Brasil tem esse recurso natural, é verdade, mas em faturamento anual
por empregado, a Petrobrás é a penúltima no mundo. Em 2016, enquanto a
Petrobras pagava salários a 315.000 funcionários, entre efetivos
(84.000) e terceirizados (231.000), a Shell, a Exxon e a British
Petroleum (BP), juntas, empregavam 262.000 pessoas, 53.000 a menos que
a brasileira, com lucros somando US$ 58,6 bilhões. A Petrobras passou
por quatro anos de prejuízos seguidos;

    Outra circunstância regularmente substimada é o irrevogável fato de que vivemos em um mundo de escassez: o
dinheiro para bancar todos os gastos estatais advém da tributação de
bens e serviços produzidos pela economia privada. E estes, por
definição, são escassos. Consequentemente, dado que a tributação
incide sobre bens e serviços escassos, sua capacidade de arrecadação
é, por definição, limitada. Se os gastos crescerem mais do que essa
capacidade de arrecadação, o dinheiro irá literalmente acabar.
    Sim, isso parece ser um "truísmo óbvio" (pleonasmo intencional), mas é
necessário sempre repeti-lo, pois ainda há quem negue a incontestável
realidade da escassez.
    No Brasil atual, o dinheiro para bancar os crescentes gastos do
governo literalmente acabou. E por dois motivos:
1) a quantidade de pessoas aptas a serem continuamente tributadas
parou de crescer;
2) as que ainda estão aptas a ser tributadas são pouco produtivas. A
produtividade de um brasileiro equivale a 25% da produtividade de um
americano, o que significa que um brasileiro leva uma hora para
produzir o mesmo bem ou serviço que um americano produz em 15 minutos.
Quem produz menos por hora tem renda menor. Quem tem renda menor tem
menos capacidade de ser crescentemente tributado.

    A raiz da riqueza dos países nórdicos também pode ser rastreada a um
fundamento de origem ética, que Max Weber chamou de ética protestante
e o espírito do capitalismo.
    Dado curioso: Aparentemente, pode-se tirar os escandinavos da
Escandinávia, mas não a Escandinávia dos escandinavos. Há um legado
cultural que explica parte desse sucesso: uma cultura de confiança
social, de relativa ausência de corrupção, e uma ética de trabalho
luterana. Guardadas as devidas proporções, os brasileiros convivem com um exemplo bastante próximo quando se trata da imigração japonesa.
    Americanos de ascendência sueca são 39% mais produtivos, em termos per
capita, do que os suecos que permaneceram na Suécia (para os
finlandeses em mesma situação, este valor chega a 47%; para os
dinamarqueses, 37%).  Mais: entre os americanos de origem sueca, a
taxa de pobreza é menor do que a taxa de pobreza de seus conterrâneos
na Suécia. Recorda que nossa produtividade é 1/4 da americana? Pois
bem, nesse aspecto também os nórdicos nos fazem comer poeira. Tem alguém surpreso? Eu não.
    Em termos mais abrangentes, a renda dos escandinavos que vivem nos EUA é
de cerca de 20% acima da média americana, e a taxa de pobreza, cerca
de metade da média americana.

Desafio: vamos replicar no Brasil uma ética luterana que soma trabalho,
frugalidade, poupança e crescimento de capital? Se houver uma receita
para isso quero ser o primeiro a saber.

    A social-democracia no Brasil ainda é impossível.)
    Apenas um país que já enriqueceu, que já acumulou o capital
necessário, e que já alcançou a produtividade suficiente pode se dar
ao luxo de adotar abrangentes políticas assistencialistas.
    Mas, ainda assim, tais políticas cobram um preço. Por mais alta que
seja sua produtividade, não dá para continuar crescendo como antes.
    Curiosamente, o assistencialismo encerra esse paradoxo: países pobres
não tem uma população rica e produtiva o suficiente para bancar
assistencialismo, ao passo em que o assistencialismo só é praticável
em países em que ele é menos necessário.
    Os países escandinavos primeiro enriqueceram (o fato de não terem
participado de nenhuma guerra ajudou bastante) e só depois adotaram um
estado assistencialista. E com um detalhe inevitável: após essa
adoção, a criação de riqueza estagnou.

    Agora existem provas de que a Suécia, mesmo em termos das estatísticas
do próprio governo, não é tudo o que se imagina; e que, na realidade,
não vivenciou nenhum crescimento econômico real (ao menos em termos de
empregos reais, os quais deveriam ser de óbvio interesse para os
keynesianos) ao longo de mais de 50 anos.
    Em um artigo (infelizmente disponível apenas em sueco) publicado em
2009 no periódico Ekonomisk Debatt, da Associação de Economia Sueca,
os economistas Bjuggren e Johansson, do Ratio Institute, mostram a
triste verdade.  Baseando-se em dados públicos divulgados pela agência
governamental Estatísticas Suecas ("SCB" em sueco, um acrônimo para
Bureau Central de Estatísticas) e utilizando um novo sistema de
classificação para designar o tipo de propriedade das empresas, eles
descobriram que não houve absolutamente nenhum emprego criado no setor
privado de 1950 a 2005.
    Sim, você leu corretamente: não houve nenhum aumento líquido no número
de empregos no setor privado na Suécia durante um período de 55 anos.
Em outras palavras, em um período que começou cinco anos após o fim da
Segunda Guerra Mundial, a economia sueca ficou completamente
estagnada.
    Isso, por sua vez, explica por que o governo sueco não foi capaz de
estimular continuamente o estado assistencialista desde a década de
1970 até o início da década de 1990.  Como não houve guerras
internacionais nesse período — algo que estimula, ao menos
temporariamente, as exportações de um país que não foi afetado —, o
setor exportador encolheu; e como não houve um genuíno crescimento
global no qual pegar carona, o blefe não se sustentou e a realidade
logo se impôs.

Reformas de diminuição do estado salvaram a Suécia.

    De 1973 a 1994, 21 anos, o PIB per capita da Suécia foi de 17.000 para
22.000 dólares.
Em 1994, o governo implementou várias reformas liberais, a saber:

"In 1994 the government budget deficit exceeded 15% of GDP. The
response of the government was to cut spending and institute a
multitude of reforms to improve Sweden's competitiveness. When the
international economic outlook improved combined with a rapid growth
in the IT sector, which Sweden was well positioned to capitalize on,
the country was able to emerge from the crisis."

    Os resultados se fizeram sentir: O PIB per capita foi de 23.000 para
33.000 dólares.
    O relativo sucesso da Suécia não tem nada a ver com estímulos
governamentais, aumentos nos benefícios assistencialistas ou
estatizações do setor privado.  Trata-se do resultado direto de um
resoluto e politicamente doloroso programa implementado durante um
período de mais de 15 anos, com o objetivo de limpar a bagunça de
quase 50 anos de políticas keynesianas que chegaram perto de quebrar
uma nação de mil anos de idade.


    Outro ponto flagrantemente ignorado no contexto dos países nórdicos é
a liberdade econômica. Ao passo que serviços públicos nórdicos são
sempre celebrados mundo a fora, o fato dos países escandinavos
ocuparem as melhores posições nos rankings de liberdade é sumariamente
ignorado.
    A Suécia contrabalança seu estado assistencialista implantando
políticas extremamente pró-mercado em outras áreas da economia. O ambiente empreendedorial da Suécia é extremamente desregulamentado e
o país é um dos mais abertos do mundo para o livre comércio. Lá o
gerador de riqueza não é o inimigo público número 1. Como
consequência, se analisamos fatores como livre comércio,
desregulamentação, política monetária e direitos de propriedade, a
Suécia é o oitavo país mais liberal do mundo segundo Fraser Institute.
    Agora vejamos alguns dados comparativos:

Escandinávia versus Brasil.

    Você demora no máximo 6 dias para abrir um negócio (contra mais de 130
no Brasil); as tarifas de importação estão na casa de 1,3%, na média
(7,9% no Brasil); o imposto de renda de pessoa jurídica é de 25% (34%
no Brasil); o investimento estrangeiro é liberado (no Brasil, é cheio
de restrições); os direitos de propriedade são absolutos (no Brasil, a
propriedade atenderá sua função social, o que vai permitir que o
interesse de políticos e burocratas possa intervir na propriedade com
desapropriações, encampações e outra dúzia de institutos que lotam os
manuais de direito administrativo); e, horror dos horrores, o mercado
de trabalho é extremamente desregulamentado. Não apenas pode-se
contratar sem burocracias, como também é possível demitir sem qualquer
justificativa e sem qualquer custo. E tudo com o apoio dos sindicatos,
pois eles sabem que tal política reduz o desemprego. Estrovengas como
a CLT (inventada por Mussolini e rapidamente copiada por Getulio
Vargas) nunca seriam levadas a sério por ali.
    Na Dinamarca, por exemplo, não há nem sequer indenização por demissão
(mesmo sem justa causa) e nem leis trabalhistas que restrinjam horas
extras (empregado e patrão acordam voluntariamente as horas de
trabalho), o que permite que as empresas dinamarquesas operem 24 horas
por dia, 365 dias por ano.
    E mais: o empresário não paga absolutamente nada em termos de
previdência social do empregado.  Tudo fica por conta do próprio
empregado (que paga 8%).  Eventuais negociações coletivas entre
sindicatos e empresas não demoram menos do que 30 anos para a maioria
dos assuntos relevantes (como estipular um salário-base para uma
categoria ou as horas de trabalho semanais).  Com efeito, 25% dos
trabalhadores dinamarqueses não estão cobertos por nenhum acordo
coletivo, sendo livres para negociar face a face com o empresário. Em suma: a Dinamarca desfruta pleno emprego graças a um mercado de
trabalho altamente liberalizado, em que os custos de contratar são
baixos e os custos de demitir são quase nulos.  O mercado de trabalho
dinamarquês é o quinto mais desregulamentado do mundo, perdendo apenas
para EUA, Hong Kong, Cingapura e Brunei.
    Uma economia livre é aquela em que há respeito à propriedade privada,
liberdade de empreendimento, pouca burocracia, desregulamentação
econômica, moeda forte, ausência de inflação, leis confiáveis e
estáveis, arcabouço jurídico sensato e independente, segurança
jurídica, e a garantia de que as pessoas poderão manter os frutos de
seu trabalho, isto é, as pessoas não serão confiscadas e poderão
manter seus lucros. Um bom exemplo de um país assim é a Suíça.

    Já uma economia dirigida é o oposto de tudo isso. Um bom exemplo seria
a Coréia do Norte, todos os países africanos, e vários da América
Latina.
    A disparidade é nítida para qualquer que se interesse por visitar
índices de liberdade econômica como o Doing Business. O fato dos
países mais livres serem os mais ricos e com melhor qualidade de vida
não é mera coincidência... basta ver o topo do ranking, (os países
mais livres e mais ricos), e os países na lanterna, que são os mais
fechados e mais pobres, como não poderia deixar de ser.
    Embora o primeiro modelo não seja garantia de enriquecimento -- pois o
enriquecimento vai depender da amplitude da divisão do trabalho, da
poupança, da acumulação de capital e da capacidade intelectual da
população --, o segundo modelo é certeza de pobreza.

    Retomando os exemplos, há algo de muito interessante sobre a política
suíça: você simplesmente nunca ouviu falar de nenhum político suíço em
nenhum momento da história.
    Você certamente conhece nomes — atuais ou do passado — de políticos da
França, da Alemanha, do Reino Unido, da Itália, da Áustria, de
Portugal, da Espanha, da China, do Japão, e dos principais países da
América Latina. Uma simples pesquisa no Google irá lhe apresentar toda
a equipe do atual chefe de governo de cada um desses países.
Mas você absolutamente nada sabe sobre a política da Suíça. Você
simplesmente nunca ouviu falar de nenhum político da Suíça, nem atual
nem do passado. Com efeito, você sequer sabe ao certo qual é o sistema
político vigente na Suíça.
    (Há uma piada antiga que diz que não há corrupção na Suíça porque as
pessoas simplesmente não sabem onde estão os políticos que elas devem
tentar subornar para conseguir favores.)
    A questão é: como é que um país tão famoso (e tão invejado) no cenário
internacional possui um executivo totalmente desconhecido?
Os suíços se opuseram a um governo central desde o início de sua história
O começo da confederação suíça nunca esteve relacionado à busca pelo poder.
Do século XIV em diante, enquanto toda a Europa estava dilacerada ou
por conflitos territoriais ou por conflitos religiosos (como Guerra
dos Trinta Anos, de 1618 a 1648), os originariamente 8 cantões da
Antiga Confederação Helvética eram um microcosmo de paz e
prosperidade.
    Sim, dentro desses cantões também havia diferenças religiosas, mas sua
população, em vez de guerrear entre si, preferiu um acordo: fizeram um
pacto de mútua assistência militar para proteger a neutralidade da
região e sua paz.
    O Sacro Império Romano-Germânico havia concedido a essa comunidade de
cantões a imediatidade imperial, o que significava que os cantões
estavam livres do domínio do Império (eram autônomos) ao mesmo tempo
em que faziam parte dele. Considerando-se que as realezas européias
extraíam volumosas quantias de impostos de seus súditos para financiar
suas guerras que duravam décadas, ser um suíço àquela época era
comparável a viver no primeiro genuíno paraíso fiscal da história.
    Mais ainda: por qualquer ângulo que se olhe, as seguidas destruições
que ocorriam em toda a Europa (estado fazendo estatice) faziam com que
as eventuais diferenças que havia entre os cantões suíços parecessem
totalmente insignificantes.
    Posteriormente, as diferenças religiosas começaram a crescer também na
Suíça, gerando conflitos entre os cantões católicos e os cantões
protestantes. Cada um desses conflitos teve seus vencedores, mas,
mesmo assim, nenhum deles conseguiu impor uma verdadeira mudança de
regime, uma vez que os cantões eram diversos demais para serem
governados centralizadamente. Os governos cantonais simplesmente se
recusavam a cooperar entre si. Um governo cantonal não seguia ordens
de nenhum outro governo cantonal. A única política com a qual todas
concordavam era a política externa de neutralidade, a qual acabou por
poupar o país de todas as guerras.
    Já cotejando com o exemplo brasileiro, por aqui se acredita piamente
em um governo centralizado onde supostamente um órgão parlamentar vai
representar simultaneamente os interesses de seringueiros do Acre,
pecuaristas mineiros, petroleiros do RJ e metalúrgicos do ABC... cada
qual com seu sotaque e componente cultural distinto. Ninguém conseguiu
pacificar os interesses de tão heterogênea população nos últimos
séculos, e cada grupo promoveu seu próprio golpe afim de ocupar o
cobiçado poder central, o qual sequer deveria existir.

    Voltando ao exemplo, o presidente da Suíça não tem praticamente nenhum
espaço nas discussões políticas e econômicas que ocorrem no país.
Portanto, se você não sabia quem é o presidente da Suíça, não se
preocupe; vários suíços também não sabem.

O localismo funciona na Suíça

    Os cantões suíços são os responsáveis pelo equilíbrio da política: os
cantões conservadores são todos aqueles que estão fora das grandes
cidades, como Zurique, Genebra e Berna (a capital). A população das
comunidades menores rejeita a ideia de ter um governo distante e
centralizado em uma capital nacional. Como resultado, os suíços
continuamente rejeitam propostas progressistas, como a de abolir a
energia nuclear e a de usufruir uma renda garantida de 2,5 mil francos
suíços mensais para cada cidadão. Mais de 75% dos suíços foram contra
a medida.
    Essa propensão ao localismo seria consideravelmente mais difícil não
fosse o sistema de democracia direta, muito comum na confederação.
Todas as leis federais são submetidas às quatro etapas abaixo:
1. Um projeto de lei é preparado pelos especialistas na administração federal.
2. Esse projeto de lei é apresentado para um grande número de pessoas
por meio de uma pesquisa de opinião: governos cantonais, partidos
políticos, ONGs, associações da sociedade civil podem comentar sobre o
projeto de lei e propor mudanças.
3. O resultado é apresentado a comissões parlamentares dedicadas ao
assunto nas duas câmaras do parlamento federal, é discutido em
detalhes a portas fechadas e finalmente é debatido em sessões públicos
em ambas as câmaras do parlamento.
4. O eleitorado possui o poder final de veto sobre o projeto de lei.
Se qualquer pessoa conseguir encontrar, em três meses, 50.000 cidadãos
dispostos a assinar uma petição pedindo um referendo sobre esse
projeto de lei, um referendo será marcado. Para que um referendo seja
aprovado, o projeto de lei precisa ser apoiado apenas pela maioria do
eleitorado nacional, e não pela maioria dos cantões. É comum a Suíça
fazer mais de dez referendos em um determinado ano.
    Tais referendos explicam por que o Conselho Federal é formado por
partidos da situação e da oposição: se não houver consenso, a oposição
pode usar a iniciativa popular (referendo) para derrubar qualquer
decisão tomada em nível nacional.
    O fato é que, entre 1893 e 2014, apenas 22 de 192 iniciativas
populares foram aprovadas pelos eleitores.  A reticência com que essas
iniciativas são recebidas pelos suíços indica prudência da parte dos
eleitores e aversão a leis criadas centralizadamente.
    E no Brasil? No Brasil tivemos uma dúzia de constituições desde o
império entre as promulgadas e as outorgadas, e a última parece uma
colcha de retalhos por conta das emendas constitucionais em cima de
emendas constitucionais, chegando até a culminar no curioso fenômeno
das emendas constitucionais inconstitucionais. Por aqui em 2019 o STF
ainda não tinha chegado a um veredito sobre a constitucionalidade do
processo que levou ao plano real. Segurança jurídica pra quê?

    Então o resumo até aqui nos permite constatar que:
* os países nórdicos tem diversas especificidades, uma população muito
menor culturalmente homogênea, além de territórios bem menos extensos
que o nosso. A cultura, a ética e a moral marcadamente luteranas não
são componentes que se possa replicar com um control c control v;
* Conforme o que também acontece com japoneses, a cultura dos
escandinavos acompanha os escandinavos mesmo fora da Europa, o que
resulta que eles sejam uma das populações mais ricas e produtivas,
mesmo nas Américas;
* Alguns exemplos nórdicos são de replicação ainda mais difícil por
serem países que literalmente boiam em petróleo... (o RJ mesmo boiando
em petróleo nos mostrou o que acontece quando gestores brasileiros
estão em posse de tal recurso);
* Os gastos sempre crescentes dos estados norte europeus resulta em
uma armadilha demográfica, mostrando que mesmo em contextos onde as
variáveis ajudam o assistencialismo, este não é sustentável a longo
prazo;
* Os países nórdicos enriqueceram partindo de um modelo econômico
livre, acumulando riqueza que possibilitou a aparição de uma máquina
estatal custosa... já o pensamento brasileiro que inverte causa e
consequência diz que basta ter uma máquina estatal inchada para
virarmos a Dinamarca;
* Se você tem um estado cuidando de escolas, universidades, saúde,
aposentadorias, pensões, esportes, cultura, lazer, filmes nacionais,
teatro, subsídios tanto para pequenos agricultores quanto para
megaempresários, benefícios assistencialistas de todos os tipos
(Bolsa-Família, BPC (ou LOAS) etc.), estradas, portos, aeroportos,
Correios, eletricidade e petróleo, e criando uma crescente oferta de
empregos públicos pagando altos salários, esse arranjo só irá durar
enquanto o número de pessoas produtivas — isto é, aptas a serem
tributadas — for crescente.
* Defender que Brasília possa se apropriar de cada vez mais recursos
dos indivíduos significa defender um sistema onde teoricamente todos
os indivíduos são burros (talvez um pensamento derivado de uma vaidade
patológica), e por que as pessoas são burras elas precisam ter seus
bens confiscados e geridos por Sarney, Calheiros, Collor e ACM, que
nesse sistema hipotético não só são bons gestores como também pessoas
que você confiaria para guardar sua carteira;
* Um projeto de bem estar brasileiro já é praticado, e o Brasil
estoura o orçamento para financiar desde propagandas políticas na TV à
acessores para ex-presidentes, fora estatais que usam dinheiro público para
fabricar camisinhas no Acre ou bolsas para pesquisa de comportamentos
sexuais nos banheiros públicos. Será que os indivíduos devem ter uma
parte ainda maior da sua renda confiscada para sustentar um tal
sistema? A lógica faz crer que não;
* enfim, diferentemente do Brasil, há muito mais liberdade para
empreender na Escandinávia, o que por hora ainda garante uma breve
sobrevida aos famosos gastos governamentais. Não obstante, há
certamente práticas salutares desses países a serem tentadas no Brasil
a começar por oferecer um ambiente econômico e jurídico que não fosse hostil
com a formação de riqueza;
* Sem os fatores que permitem os nórdicos serem os nórdicos, a última
coisa que nos faria ser tão ricos quanto eles seria gastar como A
Suécia ou a Noruega, países com massivo capital acumulado ou que boiam
em petróleo. Aliás, nem precisamos ir muito longe pra descobrir qual
fim leva um país pobre e populista onde autocratas gastam o dinheiro do
petróleo como se não houvesse amanhã.

Thursday, April 11, 2019

Abra cadabra, demanda agregada. Breves considerações sobre tributação de dividendos.

    Os pensadores de tendências estatistas possuem entre si algumas divergências no que se refere ao pagamento de impostos pelas empresas. De um lado há aqueles que acreditam que as empresas pagam muito pouco imposto e que o estado precisa arrecadar mais para que ofereça serviços "gratuitos e de qualidade". Por outro lado há aqueles que chegam a dizer que os empresários não pagam impostos, por que esse seria repassado no custo final de seus produtos para o consumidor/comprador, e este sim é que arcaria com os tributos.
    O que esses dois grupos tem em comum é uma crença de que não haverá quaisquer malefícios para a economia caso o governo passe a se apropriar de uma parte maior dos rendimentos das empresas. Neste texto vamos tecer algumas considerações a cerca deste terrível embuste.
    Em primeiro lugar há que se diagnosticar efetivamente a amplitude da tributação no Brasil, e mais importante que isso, perceber qual tem sido a tendência arrecadatória do fisco afim de compararmos com países que conseguem oferecer um cenário mais atrativo aos investimentos.
    Em recente reportagem para o Jornal do Comércio intitulada Redução de impostos no exterior afeta Brasil Gustavo Carmona [1] comenta que enquanto atualmente o Brasil onera a atividade empresarial com uma alíquota de 34%, os países da OCDE, (qual grupo o Brasil tem mostrado interesse em aderir) vem decrescendo o ônus sobre as empresas chegando a diminuir para uma alíquota média de 24%.
    O quadro fica mais impressionante se contemplamos as tendências tributárias de ambos os grupos. Até 1964 a tributação No Brasil não chegava a 20% (ou um quinto, bendita seja a inconfidência mineira). Já em 1995 registrou-se uma carga tributária de 27% e em forte tendência de alta, chegando à hedionda cifra de 35% no fatídico ano das manifestações de 2013.
    Os dantes mencionados países da OCDE vieram de uma tendência totalmente diferente, saindo de uma tributação de 32% no início dos anos 2000 para os famigerados 24% praticados nos dias de hoje. Tais dados revelam não só a disparidade do Brasil na cifra total arrecadada mas revela uma perigosa tendência ao distanciamento entre o Brasil e as nações que dão as cartas na economia. Em termos práticos, Carmona elucida que uma multinacional poderá escolher entre investir no Brasil, e pagar alíquota de 34%, ou na Argentina, que terá 25% a partir de 2020, e exportar de lá para o Brasil.
    Nunca é demais lembrar que os empreendedores não são escravos do estado, antes, cada um deles é um ator independente que responde aos mais variados incentivos, dos quais a carga tributária é dos mais pertinentes, por mais que os planejadores centrais não o admitam. Para denunciarmos a magnitude dessa cultura enraizada e equivocada veja-se a argumentação de Wilson Giglio [2], profissional da área de gestão empresarial, cujo texto pode ser visto em:
https://www.jornalcontabil.com.br/sabia-que-enquanto-empresario-voce-nao-paga-nenhum-imposto/
    Em síntese, Giglio é defensor da famigerada tese de que empresários não pagam impostos, chegando a afirmar em seu texto que o empresário é apenas um "depositário fiel" dos recursos do governo e que seria o comprador quem arcaria com o ônus tributário.
    Ora, Fora o fato de ignorar que não há nenhuma forma de considerar que o estado tem algum direito objetivo de reivindicar qualquer coisa de quem quer que seja sem cair em contradição performática, Giglio parece acreditar numa bizarra ficção chamada "valor certo" do produto, talvez influenciado por autores liberais pré austríacos ou, deus me livre, por Karl Marx.
    Mas não creio sinceramente que Giglio deva ser crucificado por isso, mas que ele simplesmente deve desconhecer conceitos como A lei da utilidade marginal decrescente de Carl Menger. Além disso, quem sabe se Giglio fosse apresentado à praxeologia, talvez ele passasse a compreender a apreciação subjetiva da mercadoria, a qual é característica inerente à ação humana.
    Há muitas formas de perceber o por quê do seu raciocínio estar equivocado. Ele chega ao chamado "valor certo" do produto ao embutir no cálculo os custos da aquisição, os tributos e o retorno pretendido a título de lucro... mas infelizmente a coisa não é tão simples. Caso esta forma de calcular estivesse realmente correta deveria ser indiferente para o valor final do produto quanto ele tem de imposto, vez que o empresário só teria o papel de adicionar esse ônus ao preço praticado.
    Como a praxeologia explica, quando o consumidor avalia uma compra estes elementos presentes na dita equação são indiferentes ao seu juízo. Se ele chegou ao mercado e o preço rotulado na banca de tomates é de 10 ou de 20, a variável determinante para o consumidor será sua avaliação subjetiva sobre quanto valor ele mesmo atribui ao tomate. Em síntese, o preço da mercadoria (um tomate, pra ficar no exemplo), pode ter um acréscimo de 10% por causa da seca, do tributo ou da gana do empresário, a equação por detrás do preço é impertinente... o que importa é que agora o consumidor tem diante de si uma nova informação que altera totalmente seu julgamento. Adicionalmente, qualquer tentativa de prever o comportamento dos consumidores pós tributação do tomate seria mero jogar de dados. O consumidor poderia comprar menos tomates, poderia comprar a mesma quantidade planejada face alguma necessidade imperiosa (ele pode ter de entregar uma receita já dantes combinada) ou o consumidor poderia acabar descobrindo face ao novo preço que ele nem tem tanta gana de consumir aqueles tomates [3]. o comportamento do nosso consumidor será determinado em suma de forma subjetiva.
    Porém, tal realidade é ignorada, (ou falsificada) pelos advogados do agigantamento do estado. Estes passam ao largo da subjetividade dos consumidores e parecem acreditar em uma espécie de efeito neutro do tributo na composição do preço final. Como exemplo da confusão perpetuada por tais formadores de opinião Eric Gil [4] em reportagem para o jornal esquerdista pragmatismo político advoga que em meio a crise política o governo deve investigar sonegadores, criar impostos sobre grandes fortunas e mudar a estrutura tributária para que esta atinja os milionários e bilionários do país.
    De forma semelhante Eduardo Moreira [5]  chega ao cúmulo de chamar o Brasil de verdadeiro paraíso fiscal, em que pese tal disparate seja totalmente contraditório com os dados já apresentados. Moreira ainda defende que o Brasil possui uma estrutura de estímulo ao "rentismo", onde os mais ricos receberiam os lucros de suas empresas na forma de dividendos e investiriam no tesouro direto em lugar de direcionar seus investimentos para o setor produtivo.
    Ora, para não ser injusto com Moreira, no que concerne à aspectos da renda passiva no Brasil há um pingo de procedência em sua crítica, porém, não pelo motivo que ele acredita. Seu pecado é ignorar a relação de causalidade do fenômeno, o que o forçaria a reconhecer que tudo principia da necessidade que o estado tem de se custear a partir desse endividamento. Quer se admita, quer não, a gênese de tudo repousa sobre os incontroláveis gastos do estado.
    Caso não pudesse recorrer ao crédito para se financiar o governo precisaria recorrer a uma de duas soluções: imprimir dinheiro ou aumentar impostos. Pra nossa sorte a primeira opção passa por entraves na LRF, caso contrário o real estaria fadado ao mesmo destino do dinheiro venezuelano. A opção via impostos é a preferida por Moreira, mas curiosamente ele não chega a dizer para quanto deveria subir nossa atual carga tributária, limitando-se a dizer que os impostos deveriam ser deslocados do consumo para a renda.
    Um fato curioso é que ao defender tal posição esta espécie de estatismo destoa daquela primeira analisada. Anteriormente vimos um conceito defendido por alguns entusiastas do pensamento estatista de que o empresário não paga impostos, e que estes são embutidos no preço final do produto, portanto arcados pelo consumidor. Não sabemos se Moreira é adepto desta posição, mas o que ele vem defendendo destoa francamente da posição anterior. Note que, se uma firmação do tipo "empresários não pagam impostos" estivesse realmente correta, de fato não importaria em qual momento a mordida do fisco se faria sentir, se na extração da matéria prima, na venda, na distribuição dos lucros, não importa... pois sempre o empresário iria terceirizar para o cliente este ônus.
    Fora isso, infelizmente o top 3 economista ignora peremptoriamente a realidade do tesouro direto. Segundo dados do Infomoney [6] foi somente em 2013 que o tesouro direto bateu a casa dos dez bilhões de reais, alcançando vinte e cinco bilhões em 2015 e quarenta bilhões de reais em 2016. Em síntese, o governo federal quadruplicou o seu parasitismo em menos de 4 anos, mas segundo nosso estimado Moreira os poupadores é que devem ser penalizados por optarem por levar sua poupança para aplicações mais rentáveis. Já sobre Dilma Rousseff que nadou de braçada em todo esse crédito fora uma tributação de 33/35% do PIB... nenhuma palavra.
    Eis que então a pródiga instituição estatal
* gastou mais do que podia, (pois é isso que o estado faz);
* seguiu tendo que apelar via empréstimo para às economias das pessoas físicas;
* Por nexo de causalidade encareceu o crédito;
* parasitou capital que poderia estar empregado em setores com real demanda.
    Mas agora que a prestidigitação keynesiana deu errado vamos inocentar quem deu causa ao problema e voltar toda nossa indignação contra os poupadores? Essa resposta é um completo non sequitur.
    Para a surpresa de exatamente ninguém durante essas turbulências sempre surge a famosa tese da tributação de dividendos. Pensando então no bem do debate ofereceremos algumas considerações a cerca do assunto, vez que parte das pessoas ignora totalmente quais as cifras envolvidas nessa importante temática. Não vamos nos alongar e muito menos esgotar o assunto, apenas oferecer uma noção pragmática do que está diante do investidor quando ele analisa este tipo de alocação de recursos.
    Como exemplo citaremos a BBSE3, (BB Seguridade) por ter sido listada pelo Infomoney como uma das melhores pagadoras de dividendos em 2018 [7] e que distribuiu naquele ano 6,30% em dividendos. Isso quereria dizer em termos práticos que tudo o mais constante se você tivesse um capital investido na BBSE3 de R$ 100 mil ao longo de um ano, o seu retorno pelo investimento seria de pouco mais de R$ 6 mil, isso naturalmente desconsiderando eventuais flutuações no valor do papel que nós optamos por não incluir no exemplo para que este não perca o propósito pedagógico.
    Além deste exemplo convém mencionar que há tradicionalmente dois outros setores que também são considerados bons pagadores de dividendos, o elétrico e o de telefonia, que a propósito são dois setores protagonizados por empresas estatais ou empresas privadas atuando em ambiente de forte regulação estatal. Fora isso, Trata-se a própria BBSE3 de empresa controlada pelo Banco do Brasil (BBAS3), que por sua vez é controlada pelo governo federal.
    outra constante de suma relevância nessa temática dos dividendos é que as empresas, como as do mencionado setor elétrico, são costumeiramente empresas que possuem aptidão para distribuir lucros acima de outros setores pelo fato de não precisarem realizar investimentos consideráveis, conforme nos recorda Gabriel Fonseca [8], analista da XP Research,
    Agora permita-nos uma reflexão. Caso fosse outro o cenário e se as empresas tivessem de preocupar-se com a competição do mercado, não haveriam elas de optar pela destinação de uma significativa parte desses lucros para um reinvestimento na própria empresa? Tal não possibilitaria melhorias nas tecnologias empregadas e uma subsequente especialização da mão de obra? Não seria isto o mais racional se os empreendedores visassem a não perder terreno para a concorrência no futuro? Nos parece que sim.
    Essas variáveis são sumariamente ignoradas pelos experts que volta e meia retornam à tributação dos dividendos como a panaceia para todos os males. Quisessem eles verdadeiramente possibilitar um maior reinvestimento dos lucros e tirar os rentistas da zona de conforto, seriam eles os primeiros a clamar por uma abertura do mercado.
    E quanto a praxeologia, será que em algum momento foi ela considerada pelos nossos ilibados especialistas? Naturalmente que não. Por esta mesma razão é que eles continuam a prestidigitar alguns números para calcular a ação humana. Veja-se matéria publicada pelo portal Carta Maior [9], (o auto proclamado portal da esquerda), cujo título já entrega sua conclusão: Imposto sobre lucros e dividendos geraria R$ 43 bi ao ano. Chegam eles ao questionável resultado com base em futurologia e dados pretéritos. Esquecem no entanto a inconstância das variáveis, pois não se trata mais de uma relação ceteris paribus, vez que a variável tributação há de ser inédita e inevitavelmente perturbar o resultado da equação.
    Da nossa parte não fazemos pouco caso da incerteza. Se formos instados a responder honestamente se num cenário pós tributação os investidores de BBSE3 e similares trocarão a posição em dividendos por imóveis de alugueis, ou fundos imobiliários, ou poupança, ou um CDB, ou títulos (do estado brasileiro ou não), ou se investirão em previdência privada... a única resposta honesta para isso será: não sabemos. Quantos investidores simplesmente manterão suas posições simplesmente aguardando de forma 100% passiva pela mordida do fisco em seus dividendos? Ninguém sabe.
    Porém, digamos que a estimativa da carta maior sobre os 43 bilhões está correta (e não está). Seria realmente esta cifra a salvação para as contas nacionais?
    Segundo dados divulgados pela revista Isto é, durante o governo Dilma a manutenção dos 39 ministérios totalizava um gasto anual de R$ 424 bilhões [10]. Já que estamos dando a vantagem de considerar que realmente aqueles 43 bilhões serão de fato arrecadados com o dito imposto sobre dividendos, podemos ter uma noção clara do que seria possível fazer com a tão cobiçada cifra perseguida pela esquerda. Nós conseguiríamos manter a burocracia ministerial funcionando por algo em torno de 40 dias, um resultado deveras excelente, e certamente todos ficaremos mais felizes com isso.
    Mas os adeptos do estímulo da demanda agregada poderiam conjurar das profundezas algum gráfico pra argumentar que esses gastos seriam vantajosos. Aliás, crentes nesse abra cadabra poderiam redarguir que com esses 40  bilhões o governo estaria em condição de investir em saúde, educação, segurança... áreas que possuem um notável apelo eleitoral. Ocorre que tais pessoas ignoram que um planejador central é totalmente incapaz de realizar o cálculo econômico [11], e inevitavelmente ele, o leviatã estado, alocará recursos da forma mais irracional possível. Por exemplo, ele poderá pagar R$ 650 mil de cachê para que Ivete Sangalo inaugure um hospital no Ceará [12], ou então investir milhões em uma estatal de camisinhas no Acre [13], planejada para atender uma demanda estatal mas que falirá após alguns anos por que este mesmo estado já modificou sua demanda por preservativos. Mas obviamente, Tudo que precisamos é de um político que estimule a demanda agregada por camisinhas.
    Abra cadabra, demanda agregada.

Conclusão

    Não é mais que arrogância presumir que alguns iluminados, políticos e seus burocratas, sabem melhor do que você o que fazer com o seu dinheiro. No entanto, há séculos eles vem convencendo pessoas comuns que na verdade elas são burras demais, e por isso indivíduos como Sarney e Calheiros deveriam decidir quanto do próprio dinheiro é lícito que as pessoas comuns retenham para si. A presa da vez são os lucros sobre dividendos, e amanhã provavelmente há de ser um imposto sobre grandes fortunas, (seja lá com que critério obscuro definirão isso).
    Dados estes desafios é imprescindível que cada vez mais toda concentração de poder sob o estado seja vista tal como é, um atentado contra a ética e a humanidade.

[1] Redução de impostos no exterior afeta Brasil. Jornal do comércio, 2018. Disponível em <https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/2018/01/cadernos/jc_contabilidade/608873-reducao-de-impostos-no-exterior-afeta-brasil.html> Acesso em 08 abr 2019.
[2] Sabia que, enquanto empresário você não paga nenhum imposto? Jornal Contabil, 2016. Disponível em <https://www.jornalcontabil.com.br/sabia-que-enquanto-empresario-voce-nao-paga-nenhum-imposto/> Acesso em 08 abr 2019.
[3] Selma Santos Gonçalves, doméstica que trabalha em uma residência no bairro do Humaitá, zona sul do Rio, fala da troca de alimentos caros por mais baratos na salada do almoço. “Um quilo de tomate a quase R$ 10 é um absurdo. Eu vejo quanto a minha patroa gasta para comprar. Estou vendo que também o alface está com o preço salgadinho. Tem que mudar por causa o preço. Se não dá para uma coisa, a gente tem que trocar e colocar outra que está mais em conta.”. Trecho de matéria veiculada no portal Dinheirama, 2013. Disponível em <https://dinheirama.com/alta-preco-tomate-consumidor/> Acesso em 07 abr 2019.
[4] GIL, Eric. Precisamos falar sobre impostos. Pragmatismo político, 2015. Disponível em: <https://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/08/precisamos-falar-sobre-impostos.html> Acesso em 07 abr 2019.
[5] MOREIRA, Eduardo. O banco central tem um papel fundamental. Panorama Mercantil, 2018. Disponível em <https://www.panoramamercantil.com.br/o-banco-central-tem-um-papel-fundamental-eduardo-moreira-economista-escritor-empresario-e-palestrante/> Acesso em 07 abr 2019.
[6] Você sabe para onde vai o dinheiro investido no tesouro direto? Infomoney, 2017. Disponível em <https://www.infomoney.com.br/conteudo-patrocinado/tesouro-direto/noticia/6157223/voce-sabe-para-onde-vai-dinheiro-investido-tesouro-direto> Acesso em 08 abr 2019.
[7] As 20 empresas com maior dividend yield em 2018. Infomoney, 2018. Disponível em <https://www.infomoney.com.br/onde-investir/acoes/noticia/7540781/as-20-empresas-com-maior-dividend-yield-em-2018> acesso em 09 abr 2019.
[8] O setor que todo investidor precisa ter na carteira de ações agora. Infomoney, 2018. Disponível em <https://www.infomoney.com.br/engie/noticia/7583310/o-setor-que-todo-investidor-precisa-ter-na-carteira-de-acoes-agora> Acesso em 09 abr 2019.
[9] Imposto sobre lucros e dividendos geraria R$ 43 bi ao ano. Carta maior, 2015. Disponível em <https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Economia/Imposto-sobre-lucros-e-dividendos-geraria-R$-43-bi-ao-ano/7/34522> Acesso em 09 abr 2019.
[10] A insustentável máquina do governo. Revista Isto é, 2016. Disponível em <https://istoe.com.br/411245_A+INSUSTENTAVEL+MAQUINA+DO+GOVERNO/> Acesso em 08 abr 2019.
[11] O cálculo econômico sob o socialismo. MISES, Ludwig von. Instituto Mises Brasil, 2011. Disponível em <https://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1141> Acesso em 05 abr 2019.
[12] Ceará paga R$ 650 mil para Ivete Sangalo inaugurar hospital. Jornal Estadão, 2013. Disponível em <https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,ceara-paga-r-650-mil-para-ivete-sangalo-inaugurar-hospital-imp-,988003> Acesso em 09 abr 2019.
[13] Estatal que fabrica camisinhas no Acre enfrenta crise. Exame, 2018. Disponível em <https://exame.abril.com.br/negocios/estatal-que-fabrica-camisinhas-no-acre-enfrenta-crise/> Acesso em 08 abr 2019.

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